MB Animação:アニメ物語/História do Anime: HOLS, PRÍNCIPE DO SOL.

Lançado em 1968 pela gigantesca TOEI, Taiyo no Oji: Horusu no Daiboken ou Hols, Príncipe do Sol, é um marco para a história da animação nipônica. Se trata do primeiro longa em anime onde temas adultos eram debatidos com clareza, não tendo em mente crianças como seu público alvo. Além de possuir técnicas animadas nunca vistas antes, se distanciando bastante do estilo Disney, que ate então, era a base para os animes de telão da época. Como é o caso de Hakujaden, primeiro filme animado japonês totalmente em cores.

Hols dispensa apresentações… ou pelo menos deveria dispensar… não creio que o conto do príncipe “moderno” seja tão conhecido em terras tupiniquins, onde o filme chegou apenas em VHS, e colecionou poeiras de diversas décadas até sumir no limbo da era das locadoras.

Sua ambientação é na Idade do Ferro na Escandinávia. Hols, um jovem guerreiro que não teme em usar seu machado contra feras perigosas, encontra uma lendária espada enferrujada fincada no corpo de um gigante de pedra chamado Mogue.

Ao puxa-la, o gigante diz que se trata da “Espada do Sol”, e se reforjada, o seu portador se tornará o “Princípe do Sol”. Ao regressar para sua residência, o menino encontra seu pai prestes a morrer. O senhor tomado por uma terrível doença, conta a Hols que veio de uma aldeia banhada por águas ao norte, que foi devastada por um tenebroso demônio, chamado Grunwald. O herói retorna para sua terra natal em busca de pôr fim a maldade do vilão, usando sua lendária espada. Chegando lá, ele encontra sua vila devastada… mas escuta uma música intrigante, vinda de uma garota de bela voz chamada Hilda. Será ela confiável?

Quem sabe…

Obviamente o roteiro não é um primor de inovação… na verdade, é até bem confuso. Cheio de acontecimentos paralelos e super apressados junto de um fluxo narrativo bem… estranho. Mas leve em conta que se trata de um filme que completou 50 anos em 2018. Além de que diversas cenas foram cortadas para acelerar a produção do filme, que deveria ter ficado pronto em 8 meses, mas acabou se estendendo por 3 anos.

Mas o que torna Hols tão especial?

Este longa se trata dos primórdios do Ghibli. Ou seja, a primeira vez que Hayao Miyazaki (Scene Design, Key Animation), um jovem que desejava revolucionar a forma de animar do japão, e que nunca tinha participado da produção de um longa, se junta a Isao Takahata (Diretor), outro jovem que desejava estabelecer novas paradigmas na forma de se narrar os acontecimentos em um anime. Ambos com a indispensável tutória de Yasuo Otsuka (Animation Director), mestre de Miyazaki e grande amigo de Isao Takahata.

Cheio de ação, aventura e drama muito bem distribuídos em quase uma hora e meia de filme. O plot tem como base um famoso teatro de marionetes chamado “Chikisani no Taiyou”, escrito por Kazuo Fukazawa. Que por sua vez, usou como base “Okikurumi To Akuma No Ko”, um poema épico Yukar. Fukazawa era apaixonado pelas lendas dos Ainu. Povo que viviam ao norte do Japão, e por isso, também adaptou o roteiro para a versão animada do conto.

O filme deveria ter presença do povo Ainu, como era o desejo dos principais envolvidos… mas por medo de ficar restrito ao mercado japonês, ele foi adaptado para se assemelhar aos Vikings. Algumas fontes também afirmam que a mudança foi necessária para evitar a rejeição do próprio público japonês, que naquela época, não gostavam das influências culturais do povo.

É um pouco complicado de afirmar isso, pois não há confirmações reais sobre esse ponto delicado, mas de fato, muitos Japoneses descriminavam os Ainu. Tanto que em no dia 6 de Junho de 2008, foi aprovada uma resolução bipartidária onde era exigido que o governo reconhecesse o povo Ainu como indígenas Japoneses, para fins de evitar atritos contra seus descendentes. O japão é conhecido por muitos como um país xenofóbico, e nos anos 60, eles estavam ainda mais sensíveis por conta da guerra que devastou o país. Os Ainus também se originaram na Russia, e em 1904 aconteceu a guerra Russo-Japonesa, o que intensificou ainda mais o preconceito com o passar dos anos.

Como posso dizer… Hols… Apesar de ser um clássico absoluto… é bem estranho. O roteiro é uma bagunça, o traço é inconsistente e o novo estilo de animar (que até hoje é usado na indústria) era esplêndido, mas ainda era um diamante bruto, que se lapidária lentamente com o avançar das décadas.

Mas como havia dito lá em cima, se trata de um filme de 50 anos, cheio de animadores promissores que até então, nunca haviam participado de uma produção de grande escala.

Apesar de ser um primoroso trabalho que revolucionou o estilo de animar no Japão, a produção do longa foi cheia problemas. Além da polêmica envolvendo os Ainus, a equipe do filme tinha um PÉSSIMO relacionamento com a Toei. Hols chegou tarde nos telões japoneses, em uma versão cheia de cortes, ficou pouco mais de uma semana em cartaz e foi estraçalhado pela crítica e pelo público. Depois disso, Isao Takahata nunca mais dirigiu algo pra Toei.

Aquela ingrata.

Mas como um filme que foi tão odiado se tornou um clássico absoluto?

Há diversos cortes tão consistentes, suaves e bem animados quanto uma obra televisiva do Hanna-Barbera. Mas… também há momentos DIVINOS de puro Sakuga, como a cena do combate contra o peixe gigante. A leveza do respingar da água junto da brisa formada pela forte correnteza, arregalou os olhos dos estudantes e ate mesmo dos animadores profissionais. Este corte foi animado por Hayao Miyazaki.
Aquilo… Simplesmente era algo inimaginável para o estilo de animar da época. O filme é repleto de cortes como aquele, e o responsável por boa parte destas cenas era Yasuo Otsuka.
O trabalho de áudio era outro show a parte. Utilizando de sua experiência teatral, Estsuko Ichihara esbanja sentimentos vibrantes como Hilda, que em diversas passagens usa de um tom forte e melancólico para expressar emoções conflitantes. Já Hisako Okata também aderiu ao estilo para interpretar o protagonista, que por sua vez usa de um tom confiante a todo tempo, para ressaltar ao  público a certeza de que Hols é o herói daquele conto
Todas as canções são muito bem compostas, sendo o tema principal icônico. Elas combinam perfeitamente a ambientação do longa, não deixando dúvidas de que se trata de um épico. Um excelente trabalho de Michio Mamiya, que também prestou serviços para Hotaru no Haka (Túmulo dos vaga-lumes), Sougen no Ko Tenguri, Sero Hiki no Goshu (outro filme de Isao Takahata) e diversas outras produções da Toei.

No Japão dos anos 60, animação ainda era visto como algo direcionado ao público infantil. Muitos consideravam absurdo um anime onde violência e temas adultos eram trabalhados de forma natural. Traição, maldade e bondade no coração das pessoas, regresso, ódio, morte, medo, e até mesmo uma crítica quanto ao relacionamento entre homens e mulheres no japão dos anos 60. Tudo isso ajudou o filme a ser um fracasso para época… mas também foi um marco para a história da animação como um todo. Por conta de tudo isso, Hols, Príncipe do Sol, é considerado o primeiro anime moderno.

Muito antes de se tornar um conceituado artista, Miyazaki era apenas um jovem promissor, que teve seu futuro moldado com a ajuda de seu mestre Yasuo Otsuka, que sabia como realizar um movimento dinâmico através de um cenário estático, junto de Setsuyo Matoba, supervisor do longa, que abriu as portas da fama para Miyazaki. Quase 20 anos depois, Hayao Miyazaki se juntaria ao infelizmente já falecido, Isao Takahata, e juntos fundariam o estúdio Ghibli, que re-moldaria a forma de se contar uma história através da arte sequencial animada.

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