O legado de um Mangaká: Monkey Punch e o seu “Lupin”

Nascido no dia 26 de maio de 1937 em Hokkaido, ele se tornou um mangaká em 1965, e ficou na ativa por mais de cinco décadas. Ele era um homem que amava trabalhar em cenas de perseguição, adorava inventar os mais loucos mistérios, além de possuir uma queda na hora de criar belas garotas! E acima de tudo, ele acreditava na importância de uma boa dose de humor para compor a trama de uma história, independente do tema que fosse.
E ele odiava seu apelido.
No dia 11 de abril de 2019, faleceu Kazuhiro Kato, conhecido mundialmente como Monkey Punch, vitima de uma grave pneumonia.

Kazuhiro Kato desenhava desde seus tempos de colegial, e com o passar dos anos, foi bastante influenciado pelo estilo de Sergio Aragonés e Mort Drucker (famosos por terem trabalhado na revista MAD, cujo o qual era adorada por Kazuhiro). Em 1962, ele começou a atuar como artista Doujin, onde publicou 10 histórias em formato Yonkoma nas revistas da época pela editora Futabasha. Em 1965, com o pseudônimo Eiji Gamuta, ele estreou como mangaká profissional com seu trabalho Playboy School. Mas foi em 1967 que Kazuhiro Kato publicou na revista Manga Action, sua obra prima: Lupin III.
De forma bem incomum pra época, o editor de Kazuhiro Kato incentivou o autor a trabalhar sob um apelido de fácil reconhecimento para o mundo inteiro, já visando a publicação da obra no exterior. E assim nasceu Monkey Punch! Um esquisito apelido que o mangaká se viu obrigado a aceitar.

Mesmo sem a permissão de poder usar o nome “Arsène Lupin”, criação do Francês Maurice Leblanc, o destemido mangaká resolveu apostar em uma releitura do famoso personagem, que era uma espécie de Robin Hood da Belle Époque. Um homem esbelto que roubava de forma sublime, tanto tesouros quanto o coração indefeso de belas moçoilas.

Esbanjando carisma e encarando aventuras com bizarrices sem limites, Lupin III é o protagonista da serie que leva seu nome. Neto de Arsène Lupin, o rapaz segue os passos de seu avô, “entendido” sobre como fisgar objetos valiosos e frágeis corações, ele se torna o maior ladrão do mundo, mas para manter o título, ele conta com a indispensável ajuda de seus preciosos companheiros.

São eles:

Jigen Daisuke

O homem com o gatilho mais rápido do mundo, capaz de acertar um alvo a milhas de distância, refletir balas usando suas próprias balas e… explodir mísseis antes que atinjam seu destino usando apenas uma pistola?
É… isso é o de menos nessa franquia.
Jigen Daisuke foi criado com base no arquétipo “gangster americano”, e teve seu visual inspirado no ator James Coburn, astro de filmes de Bang Bang nos anos 60.

Goemon Ishikawa XIII

O espadachim detentor da lamina mais afiada do mundo, mestre em Kenjutsu e Battoujutsu, e sempre em posse de sua majestosa espada Zantetsuken, ele é capaz de cortar qualquer coisa com perfeição quando em concentração total, seja um simples tronco ou um robô gigante que atira laser.
Goemon Ishikawa XIII é descente de um famoso ladrão que existiu na vida real, de nome homônimo e que vejam só! Também era uma especie de Robin Hood. Ele foi concebido para representar o publico japonês na obra, e teve como base Seiji Miyaguchi, ator famoso por trabalhar em filmes de Samurai.

Fujiko Mine

A Mulher com o maior número de redesigners da serie… do mundo! Ela é uma bela Femme Fatale que usa de seus atributos corporais para atingir seus alvos de forma letal, além de ser o interesse romântico de Lupin III.Fujiko Mine foi criada para ser a presença feminina da obra, tendo como base as Bond Girls de 007. Tanto que na ideia original, eram diversas mulheres que apareceriam semanalmente, e todas se chamariam Fujiko.                                                                         Koichi Zenigata   

O inspetor com a maior persistência do mundo! Ele dedica sua vida a perseguir Lupin III, mas em boa parte das vezes, acaba se unindo ao ladrão para ajuda-lo.

Koichi Zenigata é descendente de Heiji Zenigata, inspetor fictício que protagonizava diversos romances durante a era Edo.

Monkey Punch gostava de fazer historias com um ar maduro. Mesmo que o foco da revista onde seus trabalhos eram publicados fossem crianças e adolescentes, era comum as aventuras de Lupin III possuírem cenas picantes, beirando o pornográfico, e violência pesada. E ainda com um humor ácido e o protagonista quebrando a quarta parede em diversos momentos.

Não demorou para Lupin III se tornar um sucesso, e logo o mangá que deveria durar apenas 3 meses… acabou sendo publicado por quase 20 anos, e deu origem a uma franquia que continua na ativa por mais de 50 anos!
A primeira adaptação televisiva veio em 1971, e boa parte dos momentos adultos foram trocados por mais cenas de ação envolvendo perseguições e robôs, além de possuir um humor  moderado. A direção ficou a cargo de Masaaki Osumi, mas logo deu lugar para os ainda não tão conhecidos, Hayao Miyazaki e Isao Takahata.  Este anime foi importantíssima para o lançamento global da serie. Como os produtores não tinham os direitos do nome “Arsène Lupin”, cada país acabou nomeando o personagem de forma diferente. No Brasil, a série chegou com o nome Cliffhanger, e teve sua dublagem baseada no espanhol, onde o protagonista se chamava Aramís Lupin.

A franquia ganhou popularidade, e assim recebeu mais 5 adaptações televisivas, longas, filmes em live action, Ovas, especiais, crossovers, peças de teatro, jogos de vídeo game, jogos de tabuleiro, cards e um divertido musical.

O ladrão dividiu cena com o famoso Detetive Conan.

E ainda encarnou em versões live action, onde os personagens transbordam carisma.
Em 1979, quando a segunda serie animada ainda estava no ar, foi lançado o longa que é considerado ate hoje, uma das maiores animações do mundo: O Castelo de Cagliostro.
O longa contou com a direção de Hayao Miyazaki e supervisão de Monkey Punch, além de ser o inicio definitiva da união da consagrada equipe que anos mais tarde fundaria o famoso Studio Ghibli.

Poucas séries conseguem se manter por tantas décadas e ainda continuar com o mesmo carisma presente desde o início. Mesmo que muitos não concordem com esta afirmação, chegando a dizer que Lupin III se perdeu em meio a tantas adaptações… Monkey Punch sempre foi rígido quanto ao uso de seu personagem, supervisionando tudo envolvendo o neto de Arsène Lupin, e em algumas ocasiões, chegando a ser o diretor, como é o caso de Dead or Alive, longa de 1996.

Monkey Punch também publicou Keibu Zenigata, um spin-off de Lupin III, Chou Kochikame, que eram cinco crossorvers envolvendo os personagens de Kochira Katsushika-ku Kameari Koen-mae Hashutsujo (puff…) e Cinderella Boy, um trabalho bem interessante, onde temos um personagem que muda de sexo ao badalar da meia noite. Chegou a ser adaptado em uma serie televisiva de 13 episódios e recebeu uma excelente dublagem brasileira.

Monkey Punch no Sekai: Alice, também foi outro trabalho do autor… divertido e extremamente bizarro. Dessa vez totalmente puxado para o lado erótico e pastelão.

Apartir de um certo ponto, e apesar da idade, Kazuhiro Kato começou a desenhar usando computadores. Ele estudou sobre as diversas formas de se trabalhar com mangás em outras mídias, sempre indo em busca do que era moderno, e por conta disso, foi um dos fundadores do Digital Manga Association no Japão. Em 2005, ele se tornou professor de mangá e animação na faculdade de Artes de Otemae University.
Em 2013 foi lançada uma maquina de Pachinko chamada Ginroku Gijinden Roman, onde os personagens possuíam o character designer de Kazuhiro Kato. No mesmo ano, ganhou um excelente anime, e ainda contando com o designer original do mestre, mas com o traço adaptado de Satoshi Hirayama. 

Este é o fim de minha breve homenagem. Realmente é uma grande perda… e apesar de que o mestre andava bem doente ultimamente, sua morte pegou muita gente de surpresa, e foi lamentada por muitos mangakás, produtores e celebridades japonesas. 

O corpo vai… mas o legado fica. Obrigado por tudo, mestre!

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