MB Analisa: “Batalha de traduções: Jujutsu Kaisen”

Hoje, nos deparamos com a dúvida de um leitor sobre a tradução de uma determinada cena de “Batalha de feiticeiros: Jujutsu Kaisen”. Desde esse apontamento, muito se falou sobre a frase de Megumi, um dos personagens da série, e sobre o possível “erro de tradução” da editora Panini na versão impressa e licenciada do mangá. IMPORTANTE: Para esclarecer e dar nossa posição sobre o ocorrido, não citaremos aqui nenhum exemplo que não seja de canais licenciados, os quais usaremos: imagens do original japonês, do mangá publicado pela Panini e da tradução nas legendas do anime do canal oficial Crunchyroll. 

A tradução da Panini

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Imagens de Batalha de Feiticeiros: Jujutsu Kaisen, volume 02 –
página 40 (imagem 1), página 41 (imagem 2) e página 39 (imagem 3). 
Agradecimento pelas imagens ao amigo Gabriel Saraiva.

        A primeira coisa que temos que levar em consideração é o contexto da frase. Uma fala isolada não evidencia a interpretação que temos de ter ao ler todo o discurso do personagem.        Nesse sentido, vemos que, na edição da Panini, o personagem Megumi Fushigoro, insatisfeito com as “engrenagens” do sistema em que está inserido, diz que “para que mais pessoas boas sejam tratadas com igualdade, eu vou salvar as pessoas com igualdade”. Aqui, a editora peca na escolha das palavras para traduzir a frase como um todo. 
        Ao analisarmos o original japonês, onde neste balão é usado a expressão “fubyodou” que, dentro do contexto da frase, ganha o significado de “desigualdade” e “injustiça”. No inglês, a tradução do japonês foi mais feliz, usando da expressão “Whether or not it’s fair”.

Original japonês

        Ao meu ver, a escolha mais apropriada para encaixar no contexto e no sentido da frase, levando em consideração o personagem em questão, seria “Eu vou salvar as pessoas, elas querendo ou não”. E é justamente isso que ele quer dizer ao falar sobre a igualdade dos bons na página anterior. A língua portuguesa é rica e tem muito mais possibilidades de escrita que a inglesa, no sentido de adaptar o japonês.
        A escolha por “igualdade” para traduzir e definir a frase cai em questionamento quando analisamos o sentido da palavra e qual o sentido que a frase toma ao usá-la:

Salvar as pessoas com igualdade = Salvar a todos, não importa quem seja. 

        Não podemos apontar como um “erro de tradução”, visto que, pelo sentido das palavras empregadas, não está de todo errado, mas sim foi uma escolha ruim das expressões ao trazer a fala do personagem para a língua portuguesa. A essência do texto se mantém e, apesar da escolha de palavras ter sido ruim,  ela é condizente com as outras frases das mesmas personagens, em outros quadros e páginas.        Na página anterior, já utilizam do termo “desigual” para explicar o posicionamento da personagem. “Nada pode ser mais imparcial do que uma realidade desigual”.

Imagem 03

         A realidade em que os  feiticeiros estão inseridos é desigual e, para Fushigoro, as pessoas boas são salvas com igualdade, mesmo dentro desse sistema. O intuito dele, então, é de mudar isso e “salvar as “pessoas com igualdade”, para destoar do sistema. 
        É importante para compreender esse flashback (e aqui que os fãs da série bateram bastante) a personalidade de Megumi Fushigoro, quem ele é e como se posiciona. Sua maior crítica se faz ao sistema e a desigualdade dessa realidade. Para balancear essa desarmonia, Megumi se propõe a salvar quem ele quiser e quem ele acha que merece, visto que na realidade desigual em que se encontram, o único ponto análogo é a igualdade que busca dentro de suas próprias atitudes.

A tradução das legendas

        Pulamos para a tradução das legendas oficiais, que escolhem outras expressões para descrever a mesma situação. Agradecimentos aqui ao meu amigo Misael,que disponibilizou as capturas de tela do momento exato citado no mangá:  

    Aqui, salvar as pessoas desigualmente remete exatamente ao que dissemos anteriormente, que para Megumi, a salvação não é algo para todos, mas sim para àqueles que ele julga dignos de serem salvos.             A tradução das legendas escolhe expressões adequadas para transmitir a mensagem, mas não invalida e tradução usada no mangá, uma vez que toda a construção do texto traduzido converge para a mesma mensagem.



        Podemos concluir que, ao escolher uma configuração de palavras e uma construção de texto diferente da legenda do anime (e dos “scans” que muitos fãs utilizaram para ler o mangá e usam de base para questionar a editora – que ao meu ver é completamente errado, mas essa é outra história), a editora trás para a versão oficial do mangá uma interpretação diferente, mas que não categoriza errada. Quando um texto (e aqui temos que ter claro os balões de fala do capítulo construídos como um texto base) vem de forma oficial e licenciada para uma publicação, todo um trabalho de edição e adaptação é feito em cima da obra ORIGINAL.     A ideia e a essência dos diálogos e da história precisa ser mantida e respeitada e, cabe a equipe envolvida nessa adaptação, construir a narrativa condizente com o todo. Não acredito que a Panini tenha “errado” na tradução, como muitos apontaram e como se fosse feito uma tradução literal e desvinculada do texto como um todo. É importante SEMPRE ter isso em mente: qualquer mangá ou história em quadrinhos é um texto e devemos pensar neles dessa forma, além de balões isolados, como foi usado no caso em questão. 
Por Mariana Rickheim. Administradora da Mangás Brasil há oito anos, professora, historiadora e especialista em Literatura Fantástica Infanto-Juvenil. Nas horas vagas, otaku.

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