MB HQ’s: Contos Ordinários de uma Sociedade Resignada

Um dos lançamentos da editora Comix Zone para 2021, “Contos Ordinários de uma Sociedade Resignada” foi uma grata surpresa. Uma coletânea episódica com diversas “fábulas poéticas e perturbadoras que representam a vitalidade da história em quadrinho turca”. Um grande acerto da editora, numa edição em capa dura – formato padrão dos títulos da CZ – e com um bookplate exclusivo da edição nacional, desenhado por Ersin Karabulut, autor da obra. 

Por mais que sejam episódios individuais e únicos, todos os contos se unem com um ponto narrativo convergente: a sociedade e as relações sociais. Mesmo que, em alguns, seja feita de forma fantasiosa ou romântica, a crítica social é a base presente em todas as histórias. 

Ao todo são quinze histórias que narram sempre crônicas diárias, algumas em universos distópicos e realidades utópicas, sobre família e relacionamento. Apenas dois contos não fazem parte desse tipo de narrativa particular, que são os contos primeiro e terceiro. Nos demais, sempre há uma família ou uma relação familiar ou envolve as relações pessoais (amorosas ou fraternas). 


A sociedade e resignação 

Numa primeira leitura, podem parecer desconexos, haja vista que são acontecimentos totalmente diferentes de um conto para o outro, sem linearidade ou corrente lógica de conversão. Todavia, ao analisarmos um a um e pensando no conjunto da obra, o título do quadrinho se faz totalmente justo: Contos ordinários – habituais, comuns, medíocres – de uma sociedade resignada – submissa, conformada. 

Importante frisar que todos os contos demandaram uma pausa após a leitura e, embora seja um quadrinho curto, com poucas páginas e arte valorosa, a leitura é densa e precisa de fôlego. Isso se deve, claro, às críticas e reflexões que o autor propõe, e constantemente me peguei baqueada ao finalizar a leitura e foi necessário alguns minutos de pausa para retomá-la. 

O que pode ter despertado o interesse na leitura é a questão política que a envolveu em seu lançamento, já que o primeiro conto é uma crítica política aos “grandes líderes” e a resignação da sociedade ao poderio das grandes corporações. Representados como bonecos de borracha, o autor critica a política do medo que é instaurada para controlar a população. É uma análise curiosa, pois remete a uma discussão bastante presente, e até poderíamos citar Foucault e o panóptico no controle da sociedade pelo medo e pela vigia. E Karabulut consegue, em pouco mais de 10 quadros, despertar esse tipo de reflexão, tamanho seu poder narrativo e maestria. 

Segundo Conto – Uma estranha Doença

Como disse, os temas sempre vão e voltam para as relações familiares e amorosas e selecionamos hoje dois contos (e uma menção honrosa) com essa temática para nossa análise e comentários, começando pelo Segundo Conto – Uma estranha Doença. 

Em não mais que quatro páginas, Karabulut conseguiu sintetizar toda uma realidade contemporânea sobre afeto e carência. Esse foi um dos contos que mais me “bateu” e existem camadas de metáfora nele (assim como nos demais contos) que me surpreenderam bastante. 

A premissa aqui é de uma estranha doença, como uma reação alérgica, que “fala” através de palavras formadas pelas pipoquinhas de coceira. A doença – parasitária – conversa com o hospedeiro e mais parece que revela os pensamentos e sentimentos ocultos da pessoa em questão. É uma epidemia que assola a humanidade e todos parecem estar contagiados com a doença falante. 

A protagonista do conto desenvolve uma relação próxima com seu hospedeiro. Ele dá atenção a ela e ela se sente acolhida pelas palavras que lê em sua pele. 

“Era uma troca delicada, tranquila. A noite passava feito areia entre os dedos… Foi quando aconteceu uma coisa estranha: nos apaixonamos! Pode parecer esquisito, mas acontece todos os dias nas redes sociais. Foi simples assim”. 

A jovem se apaixona pelas palavras e por aquilo que elas representavam naquele momento. Não importa que seja uma doença contagiosa e que a humanidade toda está lutando contra ela. A doença de muitas pessoas é inconveniente, grosseira, abusiva. Mas a dela era gentil e apaixonante e lhe dava atenção, afeto. 

Quantas vezes não nos apaixonamos pelas palavras? A sociedade moderna e as relações sociais modernas estão sempre com esse debate em pauta: relacionamentos virtuais. O que diferencia o parasita e as inscrições na pele da jovem das notificações e mensagens de nossos aparelhos celulares? Há uma grande necessidade de afeição que está sendo suprida diariamente por esse tipo de relação, ainda mais se ponderarmos sobre a situação social pandêmica atual. Com o afastamento das pessoas, surgem formas novas de suprir a carência social e amorosa que temos quando indivíduos. E isso pode nos levar, como levou a jovem do conto, a se apaixonar pelo parasita, pela ilusão, pela existência de alguém que nos corresponde do outro lado dos pixels. 

Quando é descoberta a cura, a protagonista entra em crise. Como se curar e matar aquilo que ela tanto ama? Como desvencilhar desse amor estranho que nasceu entre ela e seu interlocutor alérgico? Dores reais de amores imaginários. 

Não entrarei em detalhes do desfecho do conto para não estragar a experiência de leitura, claro. O ponto de foco aqui são as múltiplas metáforas presentes numa narrativa tão curta, e tão densa. Todos os contos possuem essa múltipla visão, que vão além do que está desenhado ali.

Sexto Conto – Uma coisa no teto

Dentro dessa esfera de relacionamentos amorosos, a coletânea possui mais dois ou três contos que seguem esse viés. Um dos mais belos e impactantes é o Sexto Conto – Uma coisa no teto. Sobre um casal que vive uma vida tranquila e perfeita aos olhos de muitos, mas que de repente veem sua rotina pacata incomodada por uma “coisa no teto”. Não entrarei em mais detalhes sobre ele, muito embora seja de uma reflexão incrível, pois a escolha narrativa dessa análise é outra, mas o trouxe para apreciarmos a bela arte de Karabulut. Após a leitura, me contem o que acham que pode ser ou representar a “coisa no teto”. 

Décimo conto – Um amor de Pepino

Continuando a análise, trago o décimo conto para debate pois ele muito se assemelha ao segundo conto no cerne de sua metáfora: o amor pelas palavras. Aqui, temos uma dona de casa cansada e resignada a sua rotina opaca, cuidar do lar, fazer o jantar, viver na sombra de suas escolhas. Certo dia, enquanto prepara o jantar, encontra um bilhete dentro do pepino que estava fatiando. Estranho, ela pensa. Quem poderia estar colocando bilhetes para ela dentro dos legumes? E era um bilhete apaixonado. No dia seguinte, retorna à feira e compra mais legumes. Abre todos e dentro de todos eles, mais bilhetinhos. São palavras doces, reflexões bonitas que a exaltam e a consolam. 

Esse é um dos pontos da narrativa. Vemos aqui novamente o amor pelas palavras sem interlocutor real e podemos voltar a crítica do segundo conto, das relações e da modernidade. Porém, Karabulut vai além neste conto e aprofunda mais sua crítica: não é apenas Martha, nossa protagonista, que recebe bilhetes em seus alimentos. Todas as donas de casa do bairro, misteriosamente, passaram a receber mensagens em seus mantimentos. Algumas nos pães, outras nas carnes.. todas igualmente resignadas e sem perspectivas que foram consoladas por um interlocutor mítico. Forma-se um grupo de donas de casa que compartilham as mensagens e debatem se vieram da mesma pessoa. E, juntas, conseguem conversar sobre isso e sobre todas as demais coisas que as incomodam. E aqui está a grande cartada do conto: amor próprio. É sobre amor próprio e como nós mesmos podemos nos amar e nos admirar. Uma crítica ao conformismo do casamento, da rotina e da falta de amor próprio. 

Considerações Finais

Acho que posso dizer que Contos Ordinários de uma Sociedade Resignada foi oficialmente a primeira HQ que eu li em 2021. Já tinha lido Watchmen, The Umbrella Academy e pouca coisa além disso. Eu, pessoa habituada a ler mangás, fiquei surpresa em encontrar na obra essa infinidade de pontos de debate e reflexão, uma variável incrível de críticas e uma arte fantástica.

Com um ponto narrativo bem definido e conexões bem colocadas, a coletânea é uma obra fundamental para amantes de bons debates. Eu mesma poderia, facilmente, ficar horas conversando e analisando todos os contos, pois saber se todos tiveram a mesma interpretação que eu e poder dialogar com a história é um dos pontos mais encantadores das narrativas como um todo. E Contos Ordinários proporciona isso, magistralmente. 

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