MB Nacional: Arlindo, de Ilustralu

Oi, meu nome é Arlindo

Arlindo Júnior, ou Lindo (mas só para os íntimos), é um jovem rapaz gentil e carinhoso, inteligente e apaixonado por Sandy & Júnior. Ao lado de suas amigas, Mari e Lis, enfrenta a adolescência e o ensino médio e todos os problemas e dificuldades que essa fase carrega. Porém, Lindo tem um desafio a mais para encarar: ser ele mesmo. Oras, mas isso não deveria ser um desafio, certo? Para Lindo, numa cidade intolerante, com um pai intolerante e os frequentes ataques dos valentões da escola, ser ele mesmo e se provar é uma missão difícil e que ele não irá desistir. 

Nas páginas coloridas de Ilustralu, acompanhamos a jornada de Arlindo em sua descoberta e aceitação como um jovem gay, as desventuras da adolescência e muitas, muitas, referências aos anos 2000. 

A juventude e a descoberta de quem somos

Arlindo é jovem. E a juventude sempre deixa tudo mais difícil (e mais divertido também). Ele está se descobrindo, crescendo e definindo quem ele é, seja por influências e referências ou por resultados de suas ações. É na juventude que se forma a personalidade. 

A história de Arlindo mostra bem isso, o processo do crescer e do quanto o meio é importante na vida das pessoas. Os amigos, a família, as ações e as opiniões, tudo influencia diretamente em quem nós somos e, se não fosse exatamente da forma que é, seriamos uma pessoa diferente. Ou seja, assim como já disse Rousseau, o homem é um produto do meio. 

Somos formados por tudo aquilo que nos faz sentido e por todos aqueles que um dia já marcaram nossa história. Arlindo tem um pouco de sua tia, um pouco de suas amigas, um pouco de sua avó e até mesmo um pouco de seu pai. Todo o seu círculo o formou como pessoa. 

Como disse, o desafio de Arlindo é ser essa pessoa num meio que o julga e não o aceita, por serem intolerantes e preconceituosos com sua orientação sexual. As constantes críticas e ofensas também moldam Arlindo, de uma forma negativa, o que acaba apagando um pouco o brilho e a alegria inerente do jovem. 

O amor e a importância da amizade

Num breve retrato da vida de Arlindo, somos apresentados a poucos dias da rotina do menino, mas que exemplificam bem sua realidade. Estudar, ajudar a mãe em casa, viver na sombra de um pai rígido, passear com as amigas, ir na locadora e na lan house, usar o telefone só no dia do bônus e praticar esportes. Uma rotina comum, mas rodeada de muitas incertezas e dúvidas (parte da juventude).

A narrativa apresenta mais que isso, com personagens coadjuvantes completos e complexos, dentro de suas próprias histórias e desafios. Por mais que essa seja a história de Arlindo, não é só sobre ele. A autora trabalha muito bem, mesmo que em poucas páginas, as narrativas dos demais personagens, em especial, Lis. A amiga de Arlindo tem uma atenção especial na história e – sem spoilers – gostei muito do desenvolvimento e me surpreendi!

Outro personagem muito importante, e que está diretamente ligado à Arlindo, é Pedro, o aluno novo e irmão gêmeo de um dos bullies da escola. Ele se aproxima de Lindo e o jovem vê nascer uma pequena paixão, e é bonito acompanhar o estar apaixonado. Encontrar alguém que combina com você, que entende suas referências, que compartilha dos seus gostos e de seu humor refinado. A descoberta do amor é potencializada pela juventude e tudo fica mais bonito ainda em amarelo e cor de rosa. Os momentos dos dois juntos, os pensamentos de Arlindo, tudo é muito bem colocado, com delicadeza e profundidade. Arlindo não fica em dúvida, ele sabe que gosta de rapazes e, aos poucos, vamos descobrindo que Pedro também. 

Além de seus amores e amizades, a família de Arlindo é muito importante e presente no seu dia a dia. Embora seu pai seja ríspido e não aceite o garoto, querendo o mudar, a mãe de Arlindo é excepcional. A tia do rapaz também é peça fundamental na vida de Lindo, ela o ensina e o aconselha sobre como buscar em si mesmo a aceitação e como enfrentar as dificuldades da vida. 

Um ponto importante a se comentar, e que acredito que não categoriza spoiler, é a icônica cena em que Arlindo se assume para a mãe, dona Nalva. Construída de forma íntima e delicada, é impossível não se emocionar com o diálogo e a trilha sonora de Lisbela e o Prisioneiro tocando ao fundo. É um dos meus filmes favoritos da vida (e de dona Nalva também!) e foi uma das referências que eu mais gostei. 

As cores de Luiza

A escolha das cores para Arlindo é única. Uma marca da autora e uma marca do personagem, pois só de vermos o rosa e o amarelo juntos já associamos a Arlindo. Essa significação funciona muito bem, assim como tantos outros elementos do quadrinho. A arte é simples e caricata, os olhos expressivos e a riqueza nos detalhes dos cenários enobrecem a narrativa. Os quadros muito bem colocados e a tipografia que se encaixa perfeitamente na história e no enredo são um show à parte. Tudo é muito bem acertado em Arlindo e o acabamento gráfico do quadrinho vem para fechar com chave de ouro, numa edição capa dura com amplas dimensões que ressaltam os detalhes e emolduram essa obra de arte. 

Os anos 2000

Se você, leitor, não foi um jovem nos anos 2000, sinto te dizer que você perdeu uma grande época. Não que a juventude de hoje em dia seja ruim, nada disso, mas temos que concordar que a adolescência na virada do milênio foi única. Já tínhamos um pouco da tecnologia no nosso dia a dia, mas ela não era o foco de nossas relações nem o ponto principal da nossa vivência como é hoje. A tecnologia era um entretenimento novo, pautado em horas alugadas numa lan house, internet discada depois da meia-noite e torpedos sms

A HQ de Arlindo resgata essa atmosfera e a insere magistralmente num nordeste acolhedor e numa rotina jovem, capaz de conectar o leitor com aquele ambiente de uma forma saudosa e bonita, como um abraço. 

Pra encerrar 

Eu conheci a Luiza no prefácio de Madame Xanadu, do Aureliano. Ela me disse que Madame iria me quebrar e me colar inteira, e nada ficaria no mesmo lugar. E foi exatamente o que aconteceu. Madame me acalentou e me colocou no seu colo para curar minhas dores, mesmo que as dela fossem infinitamente maiores. Mas não vamos falar de Madame Xanadu, quero apenas deixar registrado minha gratidão a Luiza por me apresentar essa pessoa incrível. 

Pouco tempo depois, conheci Arlindo, e ele me encantou e me ensinou muita coisa, sobre ele e sobre mim também. A narrativa suave e as referências da história ambientaram tão bem o personagem que é impossível não nos identificar e não se sentir parte daquela realidade. Mesmo que seja tão distante de mim, num tempo, espaço e contexto social diferente do meu, ainda sim, consigo me sentir próxima de Arlindo. E essa proximidade eu também encontrei na turma do Jefferson pelas ruas de Natal e nas mesas do Café Salão Nalva Mel, e isso é incrível. 

Outra coisa muito legal sobre Arlindo é o lançamento da websérie documental sobre o processo criativo da história, produzido pela própria Luiza, com lançamento previsto para 2022! O trailer – lindíssimo – já está disponível no youtube:  https://youtu.be/ptSsjiBsAfM 

Somos todos fofoqueiros!

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