MB Movies: Homunculus – A adaptação e o porquê enfrentar traumas às vezes é traumatizante.

Filmes

Recentemente estreou na Netflix a adaptação em Live Action do mangá “Homunculus” e eu, como um admirador da obra, confesso que fiquei meio inseguro e ansioso. E, bem, acho que hoje a gente tem bastante coisa para conversar.

– O filme, sua narrativa e os traumas.

        Nessa review eu vou frisar somente sobre o Live Action, seu enredo e sua história como algo único, não passando o pressuposto de comparação com a obra original (Que, por sinal, é maravilhosa. Leiam o mangá).

        Sobre o enredo da obra: Em Homunculus, Susumu Nokoshi é um morador de rua que está em busca de se autoconhecer. Em um dia comum ele acaba encontrando Manabu Ito, um estudante de Medicina, que procura voluntários para se submeter a um procedimento cirúrgico conhecido como trepanação. De início, Susumu recusa a proposta, entretanto, acaba mudando de ideia após ver que poderia mudar seu pensamento após a cirurgia. Depois da operação, o “sem-teto” acaba adquirindo poderes, onde o seu sexto sentido é despertado.

     O roteiro em si se move de uma maneira bem dinâmica, o foco em seus plots até o meio da narrativa é bem construído, conseguindo manter um nível de excelência acima da média em seu enredo. Adaptar este tipo de narrativa, que envolve metáforas e ficção como centro, é algo bem complicado em live action. (Ainda mais no cinema japonês, que carece de bons planos em CGI). Entretanto, a direção consegue com maestria entregar um resultado satisfatório para o que a obra quer contar.

        O foco narrativo da trama é a busca do personagem principal em desvelar os traumas de outras pessoas (representados na obra pelos “Homunculus”) e, de certa forma, “resolver” essas situações.

    Há dois momentos que eu gostaria de comentar aqui com vocês. O primeiro é que, após o personagem principal fazer a cirurgia de trepanação e começar a “enxergar” as pessoas “Internamente”, o mesmo acaba por se envolver com um chefe Yakuza, que se vê como um criança dentro de um “robô” e, que por conta de um incidente no seu passado que o fez cortar o dedo de seu amigo, acaba por exteriorizar esse arrependimento fazendo esse mesmo ato com outras pessoas.

        O segundo é de uma adolescente colegial que aparentemente tem problemas de aceitação e pratica auto mutilação. Ela não consegue se sentir aceita como parte da sociedade, a não ser pela prática sexual ou erótismo, e por conta disso, é tomada pela forma de areia (na verdade são grãos com pequenas palavras e ofensas que remetem ao sexo em si).

        Todos esses traumas são mostrados de forma metafórica, o que não poderia ser melhor para tratar desses temas já que, para esse tipo de abordagem, o uso de eufemismo alivia o estresse mental causado pela explanação dos traumas.

        Algo interessante é que, com o passar do tempo, após o protagonista se envolver com as pessoas e seus “Homunculus”, ele acaba tomando cada vez mais partes dos traumas dos outros para dentro de si, como uma forma de representação do seu cansaço mental.

        E quanto mais eu assistia mais difícil era não linkar isso ao que é dito pelo psicoterapeuta “Carl Jung” sobre o lado escuro da nossa psique.

– “Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas se conscientizando da escuridão”.

        E o filme apresenta isso de forma bem arquitetada, com o protagonista encarando diversos “demônios” (Homunculus) de outras pessoas, entendendo-os e, em tese, usando isso ao seu favor. 

– Vale a pena?

        A resposta é: Vale com ressalvas, confesso que para você, leitor do mangá, é quase de certeza que irá se decepcionar com a escolha do dinamismo no final, já que pegou um rumo diferente do original (e desnecessário). E também mesmo que você não tenha lido a obra original, pode vir a sentir o final um pouco mais corrido, como se faltasse algo.

        Em tese, a adaptação consegue entregar o que se objetiva até o meio da obra, porém, mesmo com seus erros, dá para refletir sobre nossa psique, sobre o quão difícil e necessário é aceitarmos nossas sombras e traumas, e sobre o quão enlouquecedor pode ser lidar com nossos “Humanos de frascos”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *