MB Literário: Declínio de um Homem

Aviso!  A obra é extremamente delicada e contém assuntos que podem ser gatilhos para o leitor.

“Será que eu era feliz? Desde pequeno eu era chamado frequentemente de pessoa afortunada, ainda que me sentisse sempre no meio do inferno”.

Osamu Dazai talvez seja um dos nomes mais conhecidos da literatura japonesa, tanto no país quanto fora dele, recebendo também diversas menções na cultura japonesa (seja em animes, livros sobre sua vida, entre outras variações). Mas o que tornou esse autor tão conhecido? Bem, há quem diga que seja sua forma de escrita, visceral e realista, e a publicação de um trabalho específico que mudou sua carreira (infelizmente, de forma póstuma), e fez com que ele fosse conhecido como é hoje. O trabalho? “O Declínio de um Homem”. E é sobre ele que falaremos hoje. Bem-vindos ao MB Literário.

Declínio de um Homem (Ningen Shikkaku), publicado aqui no Brasil pela editora Estação Liberdade, conta a história de vida de Osamu por meio de um alter ego seu chamado Yozo, um jovem estudante provinciano que tenta sobreviver na capital Tóquio. O rapaz é um depressivo contumaz cuja tristeza se espraia nele como uma metástase, contaminando suas energias e impedindo-o de recuperar uma alegria de viver que, na verdade, nunca sentiu. Se a princípio o jovem até se esforça para “ser aceito” pelos outros, esse esforço máscara uma dificuldade que lhe é atroz: sem a personalidade própria dos carismáticos, o rapaz recorre ao estratagema de fazer “palhaçadas”, de modo a parecer divertido aos olhos de outrem.

– A narrativa

Toda a trama da obra, como dito em sua sinopse, acompanha a vida do jovem que desde pequeno não consegue entender as convenções sociais e sente dificuldade em compreender a sua existência e o conceito de humanidade. A obra é dividida em um formato de 3 capítulos (ou 3 cadernos), que servem como bússola para guiar o leitor nas etapas de vida de Yozo. Quando criança, não entende como se viver e se prende a uma crise de impostor, fazendo diversas palhaçadas para ser aceito; quando adolescente, um jovem sem esperança e um aspecto niilista que começa a ter encontro com alguns prazeres mundanos; e quando adulto, um homem totalmente preso em uma existência focada aos prazeres, como o alcoolismo, sexo, apostas e drogas.

“Guardava minhas angústias em uma pequena caixa dentro do peito e, escondendo com discrição minha tristeza profunda e meu nervosismo, aperfeiçoei-me em ser um personagem excêntrico e brincalhão, permanentemente revestido de um otimismo inocente”.

Em um dos pontos principais da trama, ocorrem eventos que formam muito bem o estigma e o sentido do nome do livro. Yozo, após se mudar para Toquio e conhecer os prazeres do álcool e prostituição, se envolve com algumas mulheres e, no caso, após fixar a máscara de palhaço e não conseguir mais dissociar ela de sí como indivíduo, uma de suas amantes resolve junto a ele tentar um suicídio duplo, mas somente a moça consegue morrer e Yozo continua vivo, o que o quebra ainda mais psicologicamente. Logo em seguida, após alguns acontecimentos, perdido em sua existência e na tentativa de entender sobre a vida e o respeito, o jovem tenta novamente se suicidar, falhando outra vez.

“Os fracos temem a felicidade. Conseguem aleijar-se até com algodão. Às vezes sentem-se feridos até com a própria felicidade”.

Alguns outros temas considerados tabus para época também são colocadas em prática na vida de Yozo, as constantes traições com as mulheres que se envolvera e seu vício em apostas e casas de penhores conseguem formular ainda mais os malefícios de uma vida permeada pela depressão, não vista apenas de um lado romântico, mas dessa vez egoísta e sem muito esperança.

Muitas vezes o personagem age de forma mesquinha e sem muita coragem, criando bem o estigma de recluso, um ser totalmente sem vontade própria e que, mesmo parecendo gentil a uma primeira olhada, carrega um grande desgosto pela humanidade, o levando a enganar e agir como quer…

“Acreditava que a vida na prisão talvez fosse mais agradável do que viver gemendo em minhas infernais noites de insônia por temer aquilo que os seres humanos chamavam de “vida real”.

– Vale a pena?

A obra é um retrato de uma existência permeada pela depressão e o egoísmo não vista pelo lado romantizado. Aqui, tudo é cru e visceral, não existe uma romantização das ações de Yozo e tudo é colocado na balança como peso de suas escolhas. O autor descreve muito bem sua vida por um lado totalmente quebrado emocionalmente, e mostra, como o próprio nome da obra diz, o declínio de sua existência até chegar ao ponto em que perde tudo e se encontra à beira do precipício humano, uma existência não apenas falha, mas imunda, como ele próprio afirma.

A trama foi um completo sucesso que infelizmente não foi visto pelo seu próprio autor, já que após a entrega de seu manuscrito ao seu editor, Osamu Dazai suicidou-se. Como se tivesse alcançado finalmente o seu propósito existencial, depois de passar por uma vida repleta de traumas como ele bem aborda em seu livro.

Afinal, o que é ser humano?

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