MB Review – Marcha para Morte, de Shigeru Mizuki

A história da Humanidade é cheia de pequenos e grandes fatos que mostram o lado podre e miserável das pessoas. A Segunda Grande Guerra é um dos fatos mais lamentáveis da história moderna, mostrando o lado sujo e perverso do ser humano.

Marcha para a Morte narra um fato verídico desse momento terrível, de forma singela e ao mesmo tempo cruel. 

Essa obra primeiramente não é para qualquer leitor. Há uma dose emocional muito forte na narrativa, afinal de contas, é um pedaço da história da Segunda Grande Guerra contida em suas páginas, mesmo com adaptações, e contada por quem viveu aquele terror.

Para entender o contexto do mangá é necessário entender o lado japonês na Segunda Guerra. O Japão aliou-se à Itália e à Alemanha, formando o Eixo. Após conquistar parte da Ásia e atacar o exército americano no famoso incidente de Pearl Harbor, o Japão sofre diversas derrotas, porém se nega a render-se. Em um dos momentos mais tristes da humanidade, os americanos resolvem utilizar os frutos do Projeto Manhattan e atacam as cidades de Hiroshima e Nagasaki, causando um dos episódios mais lamentáveis da história, a utilização da bomba atômica.

Marcha para Morte ocorre entre as derrotas japonesas no sudeste da Ásia e o fim da Segunda Guerra, numa das ilhas dominadas pelos japoneses e narra os últimos momentos de uma companhia do exército japonês.

A narrativa do mangáka Shigeru Mizuki conta com realismo a saída da companhia até Papua Nova Guiné para defesa dos territórios. Ela mostra o dia a dia daqueles militares que eram tratados com uma disciplina rígida e em condições desumanas. A narrativa conta a lamentação e a certeza que eles tinham de que não retornaram vivos às suas famílias e amigos. 

Essa riqueza de detalhes segue até o clímax, que é a invasão das forças americanas em número e armamentos maiores e a decisão do comandante de morrer com honra, que foi demonstrada num desenvolvimento chocante, pelo detalhamento das informações possíveis apenas por quem viveu o acontecido.

Shigeru Mizuki era um soldado de segunda classe, e viveu boa parte dos acontecimentos narrados no mangá até adoecer e ser ferido gravemente no fronte. Ele acabou tendo seu braço esquerdo mutilado e não participou dos acontecimentos do clímax da narrativa. Por isso, o final da obra é totalmente diferente do que lhe ocorreu, exceto pelo triste destino de dois de seus superiores, por falha em suas ações. Ele coloca sua visão em um dos personagens do mangá, o soldado indisciplinado Maruyama, que serve brilhantemente como interlocutor dessa narrativa.

O traço é um outro fator à parte. Os personagens são simples, típicos de obras adultas dos anos 70, porém as cenas dos estragos da batalha chocam pelo realismo, já que a intenção do autor é chocar e mostrar o quão destruidora pode ser uma guerra.

A narrativa é espetacular. Você se torna um espectador e, mesmo sabendo do final, a sensação que fica como leitor é querer mais detalhes, mais informações, e saber como a história chegará ao final que todos conhecemos. 

A leitura, com todos esses fatores citados, se torna uma sensação única, com uma narrativa dinâmica, poderosa e bruta. O leitor viaja facilmente para aquele universo terrível e sai com uma sensação triste  e com a reflexão de quão fútil e miserável é qualquer guerra.

Obra definida como autobiográfica, escrita e ilustrada pelo mestre Shigeru Mizuki (1922-2015), autor de Nononba e do sucesso GeGe no Kitarou, foi lançada em formato de One Shot na revista Shuukan Gendai da editora Kodansha em 1973. Teve várias reimpressões e foi publicada em diversos países, com aclamação pelos críticos. Ganhou diversos prêmios pelo mundo, entre eles um Eisner póstumo em 2016 por melhor obra internacional. No Brasil foi publicado pela editora Devir e pode ser comprada na Amazon (link) e nas nossas lojas parceiras.

Marcha para morte é uma das melhores obras já publicadas no Brasil e é obrigatória para qualquer amante de quadrinhos no geral. Brutal, mas ao mesmo tempo singela, narra com convicção o terror vivido por um pacifista num dos episódios mais lamentáveis da humanidade.

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