MB HQs: O Soldador Subaquático

Já ouvi várias vezes a seguinte pergunta: “Você não lê quadrinhos ocidentais?”. De fato, eu não possuo grande familiaridade com quadrinhos que não sejam os japoneses. Não por questão de preconceito ou por achar que sejam inferiores, mas a linguagem do mangá é muito única, e o mercado japonês é tão, mas tão grande, que prefiro me dedicar majoritariamente à ele para explorá-lo o máximo possível, já que é humanamente impossível ter acesso a tudo que aquele pequeno país asiático já produziu. Contudo, vez ou outra, acabo me deparando com HQs que me chamam atenção, por diferentes motivos. A obra sobre a qual vou falar hoje tornou-se uma dessas, e que tomei conhecimento da existência da mesma há alguns anos, ainda mais por ser uma publicação que possui uma única edição. Nunca fui atrás de ler ou comprar o quadrinho, mas recentemente surgiu a oportunidade de resenhar a HQ e eu pensei: “Opa, é agora!”. Peço que entendam que praticamente toda a minha bagagem em relação aos quadrinhos é relacionada com mangás mas, ainda assim, hoje trago a resenha de “O Soldador Subaquático”.

Em novembro de 2016, a Editora Mino trouxe a obra ao Brasil. O Soldador Subaquático é considerado um dos trabalhos mais autorais do canadense Jeff Lemire e foi produzido entre 2008 e 2012. O autor possui em seu currículo obras famosas como “Sweeth Tooth” (recentemente adaptada para a série em live-action pela Netflix), “O Condado de Essex”, “Black Hammer”, “Gideon Falls”, entre outras. 

Sinopse:

O Soldador Subaquático conta a história de Jackie, um jovem profissional responsável pela manutenção de uma plataforma petrolífera no litoral do Canadá e à espera do nascimento de seu primeiro filho. Chamado para realizar um serviço de alto risco, ele vive uma experiência fantástica relacionada à morte de seu pai, também soldador submarino e morto em um acidente de trabalho.”

Nesta jornada, acompanhamos o protagonista tentando resolver pendências consigo mesmo e com seu próprio pai, para que ele mesmo possa ser um bom marido e também um bom pai. Parece confuso, mas não é. Lemire introduz esses elementos de forma tão orgânica que, quando nos damos conta, já absorvemos todas as informações que precisamos. Claro que existem também aqueles detalhes sutis, que necessitam de um pouco mais de atenção do leitor para serem percebidos. Apesar de possuir mais de 200 páginas, a leitura ocorre de maneira bem fluida, pois além da quadrinização favorável, a história é muito instigante e gostosa de se ler. Por que Jackie é tão obcecado por seu trabalho? Por que ele insiste em se isolar mesmo quando sua esposa, Susan, está grávida de seu primeiro filho? Por que ele vive preso no passado? Por que ele detesta o dia das bruxas? Todas essas questões são explicadas no decorrer do quadrinho, e a forma que o autor encontra para esclarecê-las é muito interessante, geralmente por meio de sonhos e alucinações e, na maioria das vezes, a resposta está no fundo do mar. O quadrinho tem uma vibe pesada, não por ser violento ou algo assim, mas por ter uma atmosfera melancólica, muito por conta dos seus tons de cinza e por conta das expressões dos personagens. Jackie, por exemplo, sempre tem uma expressão cansada e depressiva, por estar mentalmente desgastado, aparenta ser muito mais velho do que realmente é. 

A arte é bem diferente do que eu estou acostumado a ver. Em alguns momentos, parece até um rascunho. Mas isso é um ponto positivo (ao menos para mim), pois eu adoro esse estilo de arte mais “diferentona” e mesmo com essa característica os cenários e os personagens são muito bem feitos. A quadrinização foi algo que me chamou muita atenção também. Se por um lado eu sempre tive problemas com algumas HQs em relação à quadrinização, que eu achava pouco dinâmica, sem sensação de movimento e passagem de tempo em relação aos mangás, O Soldador Subaquático dá uma aula nesse quesito. A quadrinização, as transições entre quadros são sensacionais, principalmente nas páginas onde o protagonista está “dentro” de sua própria mente. É perceptível que o autor conhece e sabe explorar a mídia para contar suas histórias. 

A quadrinização é um ponto forte da publicação.

Os diálogos também são bastante naturais, em nenhum momento senti que os personagens estavam falando mais que o necessário para “encher linguiça”. Eu realmente gostaria de falar mais sobre o quadrinho, mas tendo em mente que é uma única edição, e muitas de suas páginas são quase que exclusivamente focadas na narrativa visual, fornecer certos detalhes poderia estragar sua experiência, caso você ainda não tenha lido. Mas se tem algo que posso dizer, é que definitivamente vale a pena dar uma chance para essa obra. Ela consegue ser envolvente, instigante, triste, e ainda nos faz terminar a leitura com um suspiro (de alegria, alívio ou tristeza? Aí vocês terão que ler). Recomendo muito a publicação e dou uma nota 9 para ela.

O Soldador Subaquático possui as dimensões 26,5 x 17,5cm, papel offset 120g, 124 páginas e acabamento em brochura. O preço de capa é de R$59,90.

Espero que tenham gostado e nos vemos em breve!

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