MB Nacional: Mondo Urbano – Um ode ao rock e suas contradições

Movimentos musicais estão sempre borbulhando, representando grupos, momentos históricos e a expressão da arte. Dentre os diversos movimentos que poderiam ser citados, o Rock and Roll certamente é um dos mais emblemáticos e conhecidos. Em Mondo Urbano, temos esse movimento representado em toda a sua beleza e contradição, em um universo criado pelo trio Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque, que posteriormente sairiam para ganhar o mundo com publicações em algumas das maiores editoras de quadrinhos do mundo. 

Sinopse: PURO ROCK’N’ROLL! Mondo Urbano traz o ritmo alucinante de múltiplas tramas que giram em torno de um único grande evento: o show do lendário astro do rock Van Hudson e as impossíveis distorções de sua misteriosa guitarra. Dizem que há um pacto demoníaco nos bastidores dessa fama repentina. Como num mosh insano de cima do palco, o leitor mergulha de cabeça no vai e vem de histórias envolvendo caras comuns, groupies, assassinatos, alucinações, demônios, cabarés, mendigos sortudos e outras loucuras. Após dez anos de seu lançamento original, de modo independente, o impactante soundtrack em quadrinhos que consagrou o powertrio Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque está de volta numa edição comemorativa. Recheado de extras e making of, este é o seu ingresso para um dos quadrinhos brasileiros mais marcantes de todos os tempos.

Em 2019, a  Editora Mino nos presenteava com um relançamento de Mondo Urbano. Na época eu ainda não sabia que era um presente. Posso dizer com sinceridade que sou um péssimo leitor e apoiador de obras nacionais, mas sempre existe espaço pra mudar, né?! Mondo Urbano foi um salto no escuro pra minha pessoa, e que belo salto eu dei!! 

A primeira edição de Mondo Urbano foi publicada entre 2008 e 2009, e exatamente 10 anos depois a Editora Mino publica uma versão comemorativa para um título que outrora surgiu de forma independente, e quando digo comemorativa, provavelmente somos nós que devemos comemorar.

A edição da Mino tem acabamento em capa dura, e papel offset 150g. A HQ é em preto e branco, e possui formato 18,5 x 28 cm, compilando em suas 136 páginas, a história, artes comemorativas, designers de personagens e um papo muito interessante com os autores e a obra. O valor da edição é R$64,90, podendo soar salgado para alguns, mas certamente é um valor condizente com a edição proposta e a nossa realidade (papel tá caro, parceiro). Além de que certamente é possível conseguir um bom desconto com certa facilidade. 

A edição é muito bonita e condiz com o status de edição comemorativa. Particularmente, eu adorei os extras e acho interessante compreender a importância do Mondo Urbano para o cenário nacional e o crescimento dos autores, mas nem só de boas iniciativas vive o homem. Afinal de contas: do que se trata Mondo Urbano? É uma boa história?

Mondo Urbano é uma obra extremamente divertida, se dividindo entre diversas tramas e subtramas, tendo como centro o show do grande Van Hudson, um astro do rock, e se desenvolvendo em torno desse núcleo temos histórias que representam muito bem importantes aspectos do movimento musical, sejam positivos ou negativos. 

O misticismo por trás da obra é representado através da lenda do astro que vende sua alma em troca de talento e sucesso. Contos herdados do Blues representavam muito bem um  momento de crítica às concepções moralistas religiosas, mas também esbarravam na relação dos compositores com as tragédias que os cercam. O resgate dessa relação entre música e diabo no movimento do Rock não é à toa, quem nunca ouviu que o diabo é o pai do Rock?! Em meio ao cenário de Guerra Fria e pós Segunda Guerra, temos um forte desejo de questionar o sistema, e a figura perfeita para isso não seria um símbolo odiado e que representaria todos os pecados??!!

Algumas histórias trazem muito esse clima de insatisfação política, o sentimento de viver o agora sem medo do amanhã está nas linhas de texto e expressão de diversos personagens. Essa concepção gera diversas contradições: a crítica à prisão social e obediência civil representam muito bem esse momento, mas também se mistura com o forte uso de drogas e a imprudência juvenil, com leituras bem críticas sobre esses movimentos. O medo da juventude e o fim do mundo estavam presentes em um cenário de desvalorização do trabalho e pressão social. Descrevendo agora, não posso julgar quem decide deixar a pressão de lado e se joga em situações malucas e shows sem fim.

Momentos antes da ***** acontecer.

 Mondo Urbano não é uma obra que tem como foco entender esses diversos elementos e como eles surgiram, mas sim fazer um ode a esses elementos presentes no rock, e como aqueles que viviam o momento se sentiam, desmistificando algumas coisas, aprofundando outras, em uma trama que é bem envolvente. Não é um roteiro de quebrar a cabeça, mas não seria tão bom se fosse o caso. 

Antes que eu me perca em alguma música para relembrar a satisfação de ler Mondo Urbano, gostaria de ressaltar que um dos pontos altos da história é a arte. Eu não sou um especialista, longe disso kkk, mas a combinação dos autores é bem gostosa de se ver, mesmo mudando o traço e a discussão de obra, somos envolvidos em uma história sobre pessoas, drogas, amor, o diabo, e muuuito ROCK’N’ROLL.

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