MB Movies: Cinema Yakuza – Volume 2 (Versátil Home Video)

Em 2016 a Versátil Home Video, produtora e distribuidora de filmes em mídia física (DVDs e blu-rays), trouxe para o mercado o segundo volume da franquia “The Yakuza Papers”, que é uma série de filmes sobre a Yakuza (máfia japonesa) produzida pela Toei Company. O roteiro dos filmes foi inspirado por uma série de artigos de revistas do jornalista Koichi Iiboshi, que se baseou originalmente nas memórias escritas por um membro da Yakuza, Kozo Mino, e os filmes detalham os conflitos da Yakuza na província de Hiroshima. 

Os cinco filmes dessa série, e que estão presentes no segundo volume do Cinema Yakuza da Versátil, foram dirigidos por Kinji Fukasaku, que é conhecido como “O Poderoso Chefão do Japão”, e a quintologia é estrelada pelo ator Bunta Sugawara como Shozo Hirono, personagem que foi baseado em Kozo Mino. 

O primeiro disco apresenta os seguintes filmes: Luta sem código de honra (“Jingi Naki Tatakai”, 1973) e Duelo em Hiroshima (“Jingi Naki Tatakai: Hiroshima Shito-hen”, 1973). 

Sobre o primeiro filme

A trama gira em torno do ex-soldado Shozo Hirono, que ascende de comerciante do mercado negro para um dos líderes de um clã da violenta Yakuza, através de assassinatos, traições e lutas sem nenhuma honra. A sequência de abertura é extremamente violenta, com muito sangue e mutilações, todavia, o começo do longa é bastante confuso, uma vez que o enredo tenta apresentar vários personagens de uma vez, congelando o rosto deles e mostrando os seus nomes e o futuro cargo na Yakuza. Porém, as suas vestimentas são semelhantes e os personagens não possuem traços distintos em suas aparências, o que fará muitos espectadores se perderem durante a apresentação. É um longa que considero necessário ser assistido mais de uma vez. 

Os pontos altos dessa primeira parte estão na direção frenética e com cortes rápidos do diretor Fukasaku, que conduz magistralmente as cenas de ação. Possui diversas cenas explícitas de violência que influenciou diretores como Quentin Tarantino e Takashi Miike. Outro ponto positivo é o ator Bunta Sugawara que interpreta o personagem Shozo Hirono, com uma presença poderosa em cena e bastante instigante, uma escolha mais do que acertada para o papel principal. Vale mencionar também a cena do ritual Yubitsume, que é feito pelo personagem do senhor Sugawara. Esse ritual consiste em amputar o dedo mindinho para se desculpar com alguém, e essa parte causará certo tensão e repulsa pelo público que não está habituado com esse tipo de cena, eu achei simplesmente fantástica hehe

Ainda no primeiro disco, temos o segundo filme, o já citado Duelo em Hiroshima, que traz a atriz/cantora Meiko Kaji e o saudoso ator Sonny Chiba, que recentemente faleceu devido complicações da Covid-19. Repetidamente espancado por jogadores, policiais e gângsteres, o lobo solitário Shoji Yamanaka finalmente encontra um lar como assassino da família Muraoka e se apaixona pela sobrinha do chefe Muraoka. Enquanto isso, as ambições do cão louco Katsutoshi Otomo atraem o protagonista da série, Shozo Hirono, e o outro yakuza para uma nova rodada de derramamento de sangue. O segundo longa da saga Yakuza Papers segue o mesmo caminho do primeiro filme, porém não temos uma cena de abertura que apresenta diversos personagens ao mesmo tempo como acontece no primeiro. Também temos um novo protagonista, o senhor Yamanaka, que possui um temperamento explosivo, enquanto que o Shozo é mais um personagem secundário e que serve para ligar a trama do filme anterior com esse. 

Aqui o destaque fica para as atuações de Sonny Chiba, que interpreta um Yakuza mais caricato e ainda mais violento. Outra atuação de destaque é da Meiko Kaji que interpreta a sobrinha do chefe Muraoka, uma viúva de um herói de guerra e que tempos depois acaba se apaixonando pelo criminoso Shoji Yamanaka, numa atuação mais dramática e que rende momentos emocionantes. Para os fãs da senhorita Kaji em filmes como Lady Snowblood ou Female Prisoner Scorpion, podem acabar se decepcionando com a personagem que ela interpreta nesse longa, pois em nenhum momento veremos ela empunhar e desferir golpes com uma espada ou um revólver. Para o tipo de personagem que ela interpreta é compreensível que não tenhamos tais momentos, e independente do papel que ela faz, é sempre bom conferir sua grande atuação.

Na segunda parte da série Yakuza Papers, o diretor Kinji Fukasaku traz novamente seu ritmo acelerado, com ainda mais violência e caos nesse pedaço da história envolta de muitas traições e o horror dos homens que morrem no Japão do pós-guerra.

Partindo para o segundo disco temos “Guerra por procuração” de 1973. Aqui, a família Muraoka agora controla o crime organizado em Hiroshima. Porém, a saúde do chefe Muraoka faz com que ele se retire do comando da família, deixando-a sem um herdeiro definido. Uchimoto busca o apoio da família Akashi, através de Shozo Hirono. Apesar da ajuda de Hirono, o chefe Yamamori assume a família Muraoka, tornando-se o chefe do crime em Hiroshima. Uchimoto então faz com que Yamamoto perca o apoio da família Akashi. Agora as famílias Akashi e Yamamori lutarão de modo semelhante às potências na Guerra Fria, usando famílias menores para evitar confronto aberto. Novamente, o crime em Hiroshima será disputado em batalhas sangrentas.

A terceira parte desse épico da Yakuza é basicamente focado nas negociações entre as famílias mafiosas, possuindo menos doses de violência, porém, quando temos tais cenas há bastante brutalidade, do jeito impactante que o diretor Fukasaku sabe como ninguém realizar. Novamente destaco a presença forte e elegante do ator Bunta Sugawara como Shozo Hirono, nesse filme ele retorna como protagonista e é gratificante vê-lo novamente em sua posição de destaque.

Fechando o segundo disco, temos o penúltimo filme da pentalogia, “Estratégias Policias” de 1974. Com as preparações japonesas para sediar as Olimpíadas de 1964 e a crescente pressão da opinião pública, a polícia começa a intervir ativamente nos conflitos dos yakuzas de Hiroshima. Shozo, agora expulso da família Yamamori e aliado de Uchimoto e da família Akashi, planeja acabar de vez com o chefe Yamamori. Porém, Yamamori conta com a inteligência de Takeda e com sua grande influência sobre as forças policiais para sua proteção. As duas grandes famílias, entretanto, não entram em conflito aberto, deixando a luta para facções afiliadas menores. 

O quarto filme começa exatamente de onde o terceiro parou. Aqui a pressão popular cresce e cobra das autoridades mais segurança e vemos a estratégia policial entrando em ação para fechar o cerco contra os mafiosos, onde inúmeras vidas são ceifadas e dezenas de outras serão presas ao decorrer da história. Esse é definitivamente um dos meus longas favoritos dessa saga dirigida pelo senhor Kinji Fukasaku.

E finalmente chegamos ao quinto filme que conclui essa saga de forma explosiva e bastante violenta. Por conta do cerco policial sobre os clãs Yakuza cada vez mais fechado, o clã Yamamori transformou-se no grupo político Coalizão Tensei. O chefe do grupo, Takeda, faz o possível para legitimar os negócios do clã e distanciá-lo da imagem de Yakuza. Com a sua iminente prisão, Takeda nomeia Tamotsu líder do grupo. Otomo, Makihara e Yamamori, que não concordam com a reestruturação do clã, começam a tramar a destituição de Tamotsu. E Hirono, que está para ser liberado da prisão, torna-se motivo de apreensão para todos os chefes do clã.

A melhor palavra que resume esse filme é brilhante. Temos aqui o fechamento da história de Hirono, que se despede de forma estilosa e com violência e rivalidade contínuas. Como o próprio filme diz: “Essa é apenas uma troca de guarda” e a saga conclui-se tão sangrenta quanto começou.

A edição da Versátil Home Video ainda possui um riquíssimo conteúdo de extras como: Depoimentos de William Friedkin e Takashi Miike, Entrevistas, Trailers da coleção e etc. Esse é um item mais que obrigatório para todos os colecionadores não só de cinema Asiático como de cinema-policial, mais do que recomendável!

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