MB Nacional: Lampião – O ressurgir do “bom” mau

“…de tanto atirar, mais parecia um candeeiro aceso nas escuras noites da caatinga”

Confesso que há muito tempo estava na expectativa para o lançamento de uma obra específica, mais precisamente uma nacional. Quando vi o seu anúncio no catarse, quase entrei em um colapso devido a sensação de êxtase! Ali eu percebi que era, sim, possível “remodelar” o nosso berço histórico, brincar com o irreal, e reformular toda uma lenda. 

Dessa vez longe de amarras morais, algo mais focado na ação e divertimento juvenil, e que mesmo assim consegue exaltar ainda mais todo nosso conteúdo histórico e provar que boas e imaginárias histórias conseguem alcançar os mesmos níveis narrativos de muitos mangás japoneses – sendo melhor muitas vezes. E é sobre tal história que falaremos hoje. “Lampião” é seu nome, e sejam bem-vindos ao MB nacional de hoje!

Lampião é um mangá nacional da editora IndieVisivel Press, com autoria de Heitor Amatsu. A narrativa foi um tremendo sucesso no Catarse, rede para financiamento de autores independentes, se tornando o mangá nacional  com o maior financiamento coletivo da plataforma.

A história segue um homem que nasceu nas terras semi áridas de Pernambuco, temido por muitos, adorado por um tanto, Lampião é uma lenda. Através dos anos, a bandidagem e o cangaço fizeram seu nome se espalhar pelo Brasil afora.

Poucos conheceram a verdade sobre o homem; menos ainda acompanharam as histórias da real bravura de seus atos, pois quando uma traição termina por ceifar a maior lenda que todo o cangaço já viu é que a história de Lampião se alumia ainda mais. Ajudado por uma entidade para lá de esfomeada e debochada, Lampião tem um novo motivo para viver. Dessa vez ele não vai ser mais traído: ele vai atrás daqueles que tiraram tudo dele. É justiça e chumbo agora!

– A Narrativa

A história nesse primeiro volume cumpre muito bem seu papel em apresentar o universo e ambientar o leitor no que está por vir. Somos apresentados a Lampião, um anti-vilão(?) que tem como objetivo roubar dos ricos e dar aos pobres, algo bem comum em narrativas de ações, o que não era de se espantar aqui. Todavia, o mangá brilha mesmo em sua forma de apresentar isso, a inserção de Maria bonita, sua companheira, e seus colegas, logo nas primeira páginas, conseguem muito bem mexer com o imaginário coletivo desse famoso grupo nordestino, o que facilita ainda mais digerir o que está por vir na forma que o autor transmite essa história.

Algo muito bem estruturado é como o autor utiliza do fato histórico para mesclar com o metafísico e desenvolver sua catarse. Nesse primeiro momento, após Lampião ser pego em uma emboscada, pelo acaso, ele se encontra em um local de sacrifícios e após ser degolado uma criatura maligna se junta ao seu corpo e o traz de volta, dessa vez, como um espírito vingativo (?). 

Nesse primeiro volume, Lampião mesmo sendo tomado pela entidade ainda mantém consciência de algumas ações que ele considera moral, como ajudar uma moça e até mesmo discursar sobre o aspecto da vida. A ação é exorbitante, sendo extremamente divertida de se acompanhar, o que dá uma vibe bem Shōnen padrão, com um enorme apreço histórico brasileiro.

Outro ponto que merece elogios é a carga linguística brasileira, os diálogos extremamente regionais conseguem com facilidade manter o leitor apaixonado e familiarizado com a narrativa. Diversos são os momentos em que o uso linguístico nos quadrinhos vão além do padrão de uma narrativa de ação, é como se os personagens falassem diretamente ao leitor por meio do coloquialismo, algo extremamente simples mas que, com uma obra dessa, representa muito bem a paixão e a nacionalização de uma obra para o mangá.

– Vale a pena?

“Lampião” foi uma das leituras mais emocionantes desse meu começo de 2022. Talvez pelo meu apreço à cultura nordestina e meu singelo gosto por Shōnen, fez com que o carinho ultrapassasse a barreira do racional, mas eu acho que não é só isso. A estética do autor, a forma da linguística utilizada, a vontade livre de amarras morais para brincar com personagens históricos, tudo isso fez com que esse mangá conseguisse muito mais ir além do padrão da ação e agradasse simplesmente por ser bem feito com o que propõe. Parafraseando o autor, nada move mais o homem do que a vingança e o desejo de sobreviver. Apóiem o mercado nacional de mangás, viva nossa cultura! 

Lampião já está disponível para compra no site da IndieVisivel Press. 

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