MB Review: Croquis

Já comentei aqui em minhas resenhas duas coisas que acabaram convergindo no que será dito hoje. A primeira delas é que eu não sou fã de spoilers de forma alguma e se possível tento fugir, até mesmo da sinopse. A outra é como acaba sendo uma experiência interessante dar uma chance a alguns quadrinhos novos, pegando-os pelo acaso. Como a situação está complicada financeiramente para todo mundo, não é um luxo que se é possível de fazer constantemente, mas sempre vale a pena, se não pelo quadrinho, pela experiência. 

Então, como estamos em momentos complicados, fazer essa experiência com um One Shot pode ser uma ótima opção, ainda mais de um que eu nem sequer li a sinopse antes de lê-lo. E é sobre isso que vamos falar hoje. Sobre Croquis, um One Shot de Hinako Takanaga que a editora NewPop lançou em 2015.

Sinopse

Nagi tem um trabalho de meio período como modelo numa escola de arte e ultimamente ele vem notando o olhar de um aluno em especial. Kaji parece bem amigável, mas Nagi tem medo de revelar seu maior segredo: Ele é uma drag queen e está guardando dinheiro para fazer grandes mudanças! Será que Kaji aceitará Nagi como ele é ou ele será esnobado novamente?

Narrativa

Contém spoilers leves.

O mangá é dividido em sete capítulos, sendo que apenas quatro deles estão relacionados a esta história principal. Nela, conhecemos Nagi, o nosso protagonista que trabalha posando para alunos de uma escola de artes no período da manhã e em uma espécie de boate como drag queen no período da noite. Antes de continuar, acho que vale a pena uma ressalva aqui. Utilizarei o termo drag queen nesta resenha por respeito a sinopse, porém, em minha leitura, Nagi na verdade está trabalhando como crossdresser mesmo.

Nagi é um garoto gay que está cansado de ser rejeitado por garotos e acredita que, se ele se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, pode conseguir conquistar o coração daquele que ama e esse pra mim acaba sendo o ponto mais importante do mangá. Com um pensamento simples de Nagi, já somos apresentados a um conflito que acaba sendo bastante identificável ao nosso mundo.

Nagi, devido a tamanha rejeição amorosa, quer se submeter a uma cirurgia, mesmo que aparentemente, seja um garoto cis, ou seja, se identifica como homem. Ele está disposto a alterar sua fisionomia apenas para sentir uma vez como é o amor correspondido. E isso conversa com diversas pessoas, tanto em questão de gênero e sexualidade, como é o exemplo do próprio protagonista, quanto em questões mais leves, pois não são poucas as pessoas que buscam mudar mesmo sem se identificar com a mudança, apenas para chamar atenção de algo que buscam. E a forma com a qual esse mangá trabalha essa questão com o passar dos capítulos é bem interessante.

Em seu trabalho enquanto modelo, posando para os alunos, Nagi presta bastante atenção em um deles, Kaji, que, de acordo com o protagonista, o olha diferente, e acaba se apaixonando por ele, focando em fazer a cirurgia para que ele possa ser atrativo para Kaji. 

E encerrarei a narração da história por aqui para evitar mais spoilers. O restante do mangá “trabalha” a relação de Nagi e Kaji. Podem perceber que coloquei entre aspas porque, apesar de ter sim um desenvolvimento, a obra tem um ritmo desnecessariamente acelerado, quase pulando momentos que seriam necessário para a construção do relacionamento dos dois, o que faz com que seja um tanto quanto complicado torcer por eles ou sentir a química que eles têm.

Foram diversas as vezes nas quais passei a página e, ao ver uma cena, me peguei me perguntando “Mas já?” vendo o que estava acontecendo. Não estou dizendo que enrolar em um mangá de romance seja bom, mas que é necessário uma dosagem de ritmo para que o desenrolar de eventos aconteça de uma forma natural, nem muito rápido, nem muito devagar. E infelizmente, Croquis não conseguiu, fazendo com que a leitura valha muito mais pelas reflexões que podemos ter referente a homofobia e a correspondência por amores homoafetivos do que pelo amor em si.

O mangá também tem diversas cenas de comédia, com as companheiras drag queens de Nagi, que para mim, são o ponto alto da história, sempre sendo os ouvidos para os quais o protagonista desabafa sobre sua vida.

Agora…lembram que eu comentei que são apenas 4 capítulos referentes a essa história? Então, os demais são duas histórias curtas, também BLs, da mesma autora, sendo uma concluída em dois capítulos e uma sendo capítulo único. E aqui, boa parte das críticas que tenho a Croquis referente a ritmo se esvaem pois a autora consegue, em menos tempo, criar dois casais diferentes em ambas as histórias que tem um desenvolvimento mais interessante e uma química melhor.


Se, a princípio, questionei qual a necessidade dessas histórias estarem no volume, ao finalizar, agradeci por sua presença, pois ambas são muito interessantes, em certos pontos até mais do que a original. Não falarei muito sobre pois, se já é complicado conversar sobre um one-shot sem dar spoilers, que dirá sobre uma história de um ou dois capítulos, então teremos apenas recortes.

Em Do Meu Primeiro Amor, temos a história de dois estudantes no colégio começando a se entrosar um com o outro devido a gostos literários semelhantes, até que um deles, o que acompanhamos o ponto de vista, se vê apaixonado. E pararei aqui para evitar spoilers, mas já adianto que essa é a melhor das três histórias na minha opinião. E então temos Um Desejo para uma Estrela, que acompanhamos um garoto que odeia estrelas cadentes devido a um acontecimento de seu passado, enquanto seu amigo e veterano é um dos dirigentes do Clube de Astrologia. Apesar de ser a mais fraca das três histórias, ainda senti que houve aqui um pouco mais de trabalho para com o casal principal.

Edição Nacional

A edição de Croquis vem com 168 páginas, 12,8 x 18,7 cm, papel Offset 90g, ao preço de R$18,00. Existem alguns poucos erros de português na leitura, nada que a atrapalhe em si, mas ainda é importante ressaltar devido a constância desta crítica a editora. Mas, exceto a revisão, a NewPop fez um bom trabalho neste volume.

Conclusão

Croquis é um mangá mais interessante pelas reflexões que pode causar do que por sua história em si. Toca em alguns pontos ousados e bastante necessários enquanto conceito, mas enquanto história acaba sendo tão corrida que não é a melhor das leituras. Ainda assim, recomendo-o, tanto pelos pensamentos que podem desencadear quanto pelas histórias secundárias.

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