MB Review: A Princesa e o Cavaleiro vol. 2

O volume final de A Princesa e o Cavaleiro dá continuidade às tramas do primeiro volume, agora com o segredo de Safiri sendo revelado para todos da corte e o príncipe Franz. Ao tentar reaver seu trono, a princesa é acusada de pirataria por ter se envolvido com o Capitão Blood. Com isso, inúmeras reviravoltas e obstáculos cruzam o caminho da protagonista. O ritmo do segundo volume é acelerado. Não há tantos capítulos com aventuras extras como acontece no primeiro, tampouco um aprofundamento nos desfechos e nos novos personagens. Tudo acontece de forma rápida e direta, sem muitos rodeios. 

Representação Feminina

Sob ameaça de Madame Inferno, a protagonista não tem um minuto de paz e seu coração de menina é roubado não uma mas DUAS vezes pela bruxa. Enquanto está em posse apenas do seu coração de menino, Safiri é retratado como um rapaz direito, sério e talentoso. Em determinado momento, o que marca a mudança do coração de Safiri é sua força e coragem, atributos que vêm do coração de menino, à medida que a doçura e a gentileza, e também a fragilidade, são as características que Safiri assume quando está em posse apenas de seu coração de menina – que lhe é de direito. 

A representação feminina nessa segunda parte de A Princesa e o Cavaleiro é bastante característica da época em que foi produzida, da mentalidade conservadora e também da sociedade patriarcal tradicional japonesa. As mulheres da corte, uma vez que decidem defender Safiri das acusações de traição, promovem uma “greve” para proteger a garota e são representadas como donas de casas que ameaçam seus maridos – os próprios soldados que tentam invadir o castelo. 

A reivindicação dessa Guerra das Mulheres (nomeada assim pelo próprio autor) é para que liberem Safiri, caso contrário as damas não iriam mais lavar, cozinhar, cuidar dos bebês. Aqui, a força das mulheres é vista como uma ameaça, mas sua luta é desorganizada, com utensílios domésticos no lugar de armas, além de satirizada. O respeito só é posto a Safiri quando o Rei Plástico assume o papel de liderança e lhe promete devolver o reino, ou seja, apenas quando um homem forte e corajoso (afinal, esses eram os atributos do coração masculino) toma uma decisão é que a situação se resolve. 

Tropos

Nessas idas e vindas, corações pra lá, corações pra cá, Safiri finalmente assume sua identidade como princesa. Quando Príncipe Franz descobre que Safiri na verdade é a garota de cabelos dourados por quem se apaixonou, o jovem promete fazer de tudo para protegê-la. Assim como todos os outros personagens da história, que se apaixonam imediatamente de Safiri, como o Capitão Blood e a nova personagem Frisbe. 

O tropo da garota-príncipe, cerne principal da história, dá espaço neste volume final para um outro, muito bem trabalhado, o de Donzela em Perigo. A todo momento uma nova ameaça surge no caminho de Safiri, sejam as maldades da Bruxa ou até mesmo um Torneio de Justa que aparece do nada. A cada novo capítulo, um novo problema para a garota, mas seguem dentro do eixo principal, não sendo aventuras desconexas como aconteceu no primeiro volume. Aqui, a história segue uma linha fixa de acontecimentos, muito embora o último arco seja, ao meu ver, totalmente supérfluo. 

Referências e inspirações

Temos novamente toda uma homenagem de Tezuka ao Walt Disney em sua arte. Os quadros cartunescos e as cenas de ação e comédia são bem característicos das animações da primeira metade do século XX. Quadros com personagens e animais dançando e objetos inanimados que ganham vida emanam a energia de Fantasia, de 1940. São essas representações que recentemente Eiichiro Oda disse sentir falta nos mangás atuais, algo que tentou resgatar em seus novos capítulos de One Piece. Um estilo de desenho em desuso com o aparecimento do realismo, mas que não é datado e que nunca sairá de moda.

Neste segundo volume, a influência e representação dos elementos da fé cristã estão mais presentes. Desde um quadro com claras referências bíblicas ao pecado original e a passagem de Eva e Adão, até votos de matrimônio diabólicos e a condenação ao inferno. Uma das ameaças de Safiri é a bruxa que deseja casar sua filha demônio com o príncipe Franz. Ele, para proteger a princesa, aceita o matrimônio e é deserdado, acusado de vender a alma ao diabo e amaldiçoado de todas as formas possíveis. A construção desse núcleo como o mal instaurado que precisa ser detido e combatido com as forças divinas é bem acertado e caminha alinhado com as influências cristãs do autor. 

Outra referência utilizada e que vale a pena ser citada é a Ilha da Pérola Negra, uma clara referência à ilha de Eana, local onde Odisseu atraca com sua tripulação e é ludibriado por Circe, a feiticeira. Em A Princesa e o Cavaleiro, o corsário Capitão Blood também perde sua tripulação para as mulheres da ilha, comandadas pela Rainha Palupa. 

Esta, e muitas outras histórias de Tezuka, possuem um quê teatral. Isso graças a forte influência do autor pelo teatro Takarazuka, peças totalmente produzidas e representadas por atrizes femininas. Numa sociedade patriarcal, em que os teatro tradicional era feito apenas por homens, inclusive os papéis femininos, as mulheres de Takarazuka inovaram e galgaram seu espaço na arte, revolucionando a história do teatro japonês. 

A edição nacional

Assim como no primeiro volume, a edição está primorosa. Todo o cuidado e capricho para a produção dessa coleção é nítido no passar das páginas. As imagens e as ilustrações coloridas, tratadas especialmente para a edição, abrilhantam a doce história de Safiri. Agradecimentos à editora JBC que disponibilizou os volumes para análise. 


A história continua

Embora o desfecho tenha sido apressado e não mostre o casamento de Safiri e Franz, nem a retomada do reino ou qualquer outra explicação para o destino dos demais personagens, A Princesa e o Cavaleiro possui uma espécie de sequência não direta. O autor revisita seus personagens em Os Filhos de Safiri (Os Filhos de Safiri | Amazon.com.br), volume único que narra as aventuras dos filhos gêmeos de Safiri, mangá já publicado no Brasil pela editora NewPOP.  

Além deste, um projeto muito especial repagina as aventuras da protagonista, no recém-lançado A Princesa e o Cavaleiro – A Noite da Princesa. Volume único publicado pela editora JBC, a obra foi desenvolvida a partir de uma parceria entre a Tezuka Productions e a Mauricio de Sousa Produções, em homenagem aos 90 anos do nascimento de Tezuka. Esse projeto é parte integrante de uma série de tributos publicados na revista TezuComi em 2018, com a participação de diversos artistas convidados, entre eles o brasileiro Mauricio de Sousa, com quem Tezuka tinha laços de amizade em vida.

Em A Noite da Princesa mescla-se a história original com a do filme A Princesa e o Plebeu e, além dos personagens principais de A Princesa e o Cavaleiro, o projeto conta também com uma participação especial da Turma da Mônica. 

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