MB Nacionais: Azul Indiferente do Céu

Um retrato da história que apagamos da memória

A história da humanidade é repleta de barbáries e absurdos, desde as mais banalizadas até as mais inacreditáveis. Quando paramos para pensar nisso, reparamos como a violência está incluída na nossa existência e cotidiano de tal forma que ligar a televisão de tarde e ver assassinatos se tornou normal, e a HQ O Azul indiferente do Céu do autor brasileiro Shiko trata exatamente dessa banalidade, de como a morte está intrínseca em nosso dia a dia.

Como dito acima, O azul indiferente do céu é escrito e ilustrado Shiko e acompanha um recorte da vida de Hector Abad Gomez, jornalista que lutava pelos direitos humanos durante a década de 80 e que havia denunciado o quão insignificante era a vida de um homem em um país tomado pela violência e drogas.

Em um contexto histórico, no final da década de 80 a Colômbia possuía o monopólio na produção de coca, maconha e papoula, e era regida por cartéis do tráfico e qualquer um que fosse contra era facilmente eliminado. Entra aí o papel de Hector Abad na história, denunciando essa situação para o mundo e mostrando o quão terrível era a situação do país nesse momento. 

Uma frase que me marcou muito na leitura foi “na Colômbia é difícil um homem morrer de doença”. Essa frase curta e direta resume muito o que o país viveu nestes anos e o que muitas regiões do mundo vivem até hoje…. o medo. O medo de se posicionar, o medo de errar, o medo de ter sua vida ceifada.

As páginas da HQ parecem recortes fotográficos, como se um jornalista estivesse registrando tudo que aconteceu nesse caso, como se estivéssemos acompanhando em primeira mão a cobertura policial de mais um crime acontecendo nas ruas do Brasil, digo, da Colômbia, e, se formos pensar bem, a HQ é realmente um retrato fotográfico, um retrato de um entre tantos crimes que acontecem diariamente em nossa sociedade.

Essa sensação de estarmos acompanhando recortes de jornal se intensifica pela falta de diálogos. Shiko é econômico quando o assunto são falas e textos, tudo está descrito nas imagens, tudo está apoiado nas figuras e formas ali colocadas, que conseguem traduzir todos os sentimentos contidos na cena, todos os pensamentos e decisões que conduzem essa história para um caminho irreversível. 

O azul indiferente do céu é cru, forte e necessário, e mostra uma sociedade que às vezes pensamos que não temos familiaridade, mas na verdade, tudo ali citado acontece todos os dias, às vezes até do nosso lado. Um ponto que pode claramente incomodar alguns leitores é o tempo. Esta é uma HQ extremamente rápida de se ler, poucos minutos serão investidos nela, o que pode fazer alguns pensarem que o valor pago não compensou, sendo que na verdade, as reflexões e fatos apresentados nesta obra são imensuráveis, e claramente, após a leitura dessa obra sua visão sobre a nossa sociedade não será mais a mesma.

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