MB Nacional: Quando a música acabar, de Isaque Sagara

Eu não estava preparada, simples assim. Quando a Música Acabar tem poucas páginas, mas é uma longa história (que me fez chorar), porque ela poderia ser a minha vida. Ou a sua vida. Ela é a realidade estampada na nossa cara, mas que nossos olhos não alcançam, porque só quem viveu ela sabe como ela é.

Sinopse: Era pra ser um aniversário na periferia, mas os diversos problemas de um grupo de amigos estouram como bombas-relógio na mesma festa, mudando suas vidas para sempre.

Quando Mary me falou que tinha visto essa história em quadrinhos e pensando em mim, eu me senti contemplada. Eu trabalho com literatura e uma das melhores sensações que eu já senti é aquela em que alguém reconhece o seu trabalho pelas entrelinhas do que ele é, não pelo seu nome estampado. Eu cliquei no link, li a sinopse, sorri,  aceitei e agradeci.

A sinopse diz claramente: “estouram como bombas-relógios” mas meu cérebro pensou em como algumas explosões podem ser boas, bonitas ou coloridas. Mudanças de vida podem ser boas, sabe? Por isso, a primeira coisa que veio na minha cabeça quando eu vi a capa com todos os personagens felizes e comemorando, foi Meu Lugar.

Quando a Música Acabar é ambientada num tempo em que eu sequer era nascido e eu, sinceramente, não sei como me sinto em relação a isso, porque as mesmas situações retratadas aqui ainda acontecem hoje em dia.

Bruno está fazendo aniversário. A festa foi organizada por um dos seus amigos e é a típica festa jovem: música alta, cerveja, drogas e provavelmente, muita gritaria. Aparentemente a namorada do Bruno não tá muito afim de colar por lá, mas é o namorado dela, né? Então ela vai, e eles brigam. Talvez ela não queira estragar aquele momento dando aquela notícia e ela não quer dar aquela notícia porque não é o momento e o lugar adequado. As coisas começam muito antes da festa começar, mas é no momento em que a namorada de Bruno levanta da cama e veste a camiseta que a contagem regressiva para as explosões começam.

Recentemente, eu li um conto de ficção científica em que existem prismas de realidades paralelas. O conceito é basicamente: a partir do momento em que você ativa o seu prisma, as linhas do tempo se dividem e você pode acessar o seu outro eu. Antes da ativação, você e o outro você são a mesma pessoa, vivem a mesma vida e tomam as mesmas decisões, e principalmente, passam pelos mesmos acontecimentos mas, a partir da ativação, vocês são pessoas independentes e isso significa que vocês podem viver vidas totalmente diferentes uma da outra, mesmo sendo, em tese, a mesma pessoa.

Eu me interessei muito mais pela aplicação teórica do prisma mas lendo Quando a Música Acabar, eu gostaria de ser aquela pessoa que aparece do nada no meio da história, entrega um artefato misterioso pro protagonista e avisa o que é e o que ele tem que fazer pras coisas darem certo. Não sei para qual dos três eu entregaria, mas o fato é que eu queria que eles vivessem uma vida diferente, nem que fosse em outra realidade. E se você se interessa por esse tipo de coisa, deixo aqui uma matéria escrita por Anne Quiangala, minha amiga pessoal e inspiração diária, sobre porque nós precisamos de artefatos desse tipo.

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Pra tudo isso aqui fazer sentido, eu vou separar essa história em três eixos principais: AIDS, violência e tristeza. A partir daqui, se você não gosta de spoilers pode se despedir, mas não esqueça de adquirir seu exemplar antes de sair, tá bom?

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Hoje em dia é muito fácil obter informações sobre a AIDS e seguir um tratamento que realmente funciona, mas a gente sabe que algum tempo atrás as coisas não eram assim. Durante muito tempo a AIDS foi considerada doença de gay e isso nem faz sentido, já que última pesquisa sobre o assunto que eu olhei dizia que a maior porcentagem de portadores do vírus HIV no Brasil são homens héteros (leia aqui) e olha que eu nem falei da taxa de mortalidade, hein! Agora imagina você ser uma mulher com AIDS na década de ‘90 e a pior parte é que você não sabe como contraiu o vírus. Pois é. Esse eixo da história também bateu forte em mim, mas não tanto quanto o que ainda está por vir!

Lembra que lá no começo da resenha eu falei que as coisas que acontecem na HQ continuam acontecendo hoje em dia? Então, não é querendo ser pessimista ou algo do tipo, mas eu acho que todos nós temos uma conhecida que sofre ou já sofreu violência doméstica. Nessa realidade que Isaque nos apresenta, essa conhecida é a mãe do Tiago. Para o novo namorado da mãe dele, não basta infernizar a vida dela, ele também precisa bater nela como se ela tivesse culpa por ele ser um ser desprezível. Um dia o Tiago viu isso acontecendo e não conseguiu impedir, mas o fato é que agora ele está com muita raiva e acabou encontrando uma arma.

Esses dois eixos da história acabam culminando no terceiro, mas eu confesso que não entendi muito bem quem foi que disparou a arma, e eu até acho que a intenção do Isaque era essa mesmo, sabe? Meio que pra testar a gente. Pelo menos, é o tipo de coisa que eu faria como autora.

O namorado da mãe do Tiago já tinha avisado que não era pra fazer festa nenhuma, se não ele chamaria a polícia. Mas quem ele pensa que é? E o Tiago fez a festa, a namorada do Bruno decidiu se afundar nas drogas para fugir do que a assombrava, o Tiago ficou bêbado e quis desabafar mostrando o ferro pro Bruno e aí a polícia apareceu. Duas ambulâncias tiveram que ser chamadas enquanto alguém saía algemado, talvez sem motivo, e a interpretação dessa parte eu deixo com vocês.

Entenderam agora porque eu queria que todos eles tivessem uma vida diferente? Agora que a música acabou, alguém precisa apagar a luz e fechar as portas pois, infelizmente, esse mesmo show vai continuar em algum outro lugar. Talvez enquanto você estiver lendo essas palavras, ele já esteja rolando por aí. Talvez a gente descubra no noticiário de hoje a noite.

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One thought on “MB Nacional: Quando a música acabar, de Isaque Sagara

  • 27 de setembro de 2021 em 21:29
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    Quadrinho genial de menino Isaque Sagara.
    Um dos melhores que já li em toda a minha vida.
    Muito bem contextualizado e com uma narrativa simples e envolvente.
    Já estou a espera do próximo HQ dessa genial quadrinista.

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