MB Review: Assassination Classroom – Pedagogia à Mach 20

Em meados de 2012, eu havia acabado o anime de Reborn. Conversando com as pessoas na escola, soube que o anime não tinha adaptado tudo e corri pra saber mais sobre o que acontecia depois da saga do Futuro. E, em meio a essa pesquisa, cheguei a ver uma coisa estranha. Um ranking mostrando vários mangás diferentes e One Piece estava em segundo lugar.

“Como assim?”, eu me perguntei na hora. One Piece desde que eu me entendo por gente é uma febre incalculável. “Ficar em segundo? Ainda mais pra um novato? Então esse mangá deve ser bom demais”.

O tal ranking, na verdade, era apenas um TOC da Jump, como eu fui perceber mais pra frente. Não indicava necessariamente popularidade ou vendas, mas era uma estratégia editorial. Não lembro o capítulo em questão mas não duvido que ele estava em primeiro por ter pego a capa da revista na semana. O mangá não era mais popular que One Piece. Minha mente, nem sempre tão lúcida, entendeu tudo errado. Quer dizer, quase tudo. Porque a parte do “esse mangá deve ser bom demais” se concretizou.

Agora, depois de quase 10 anos desde o primeiro momento que conheci a obra, pude lê-la do início até o fim. A história parte de uma premissa peculiar, para dizer o mínimo.

Uma criatura destruiu quase toda a lua e ameaça fazer o mesmo com a Terra no prazo de 1 ano. Entra em contato com o governo e decide que, neste período, irá dar aula para uma turma específica e treinará estes alunos para matá-lo, criando literalmente uma Sala de Aula de Assassinato. A criatura mais parece um polvo amarelo, com uma quantidade incalculável de tentáculos, além de se mover a Mach 20 (Mais de 24 mil km/h). Sendo assim, acatar as exigências estranhas da criatura parece a melhor opção para todos visto que, mesmo com os esforços, não seria possível nem sequer arranhá-la.

A classe aproveita que este ser não tem nome e o batiza de Koro-sensei (um trocadilho com Korosenai, “aquele que não pode ser morto”, “imatável”, “impossível de desviver”) e assim começa uma das aventuras mais improváveis que você poderá encontrar na sua vida.

Pra ser sincero, são tantas camadas nesse mangá que é difícil escolher um norte a se seguir. Com uma premissa dessas, é fácil fazer um mangá de ação, ou um mangá de comédia voltado ao absurdo. E Yusei Matsui consegue com maestria fazer ambas as coisas na mesma história.

Começando pela comédia, Koro-sensei usa sua velocidade de Mach 20 para as coisas mais absurdas e estúpidas que existem, num bom sentido. Enquanto desvia de balas e facadas, o professor tira as dúvidas de um aluno, enquanto faz um penteado único em seu assassino. A comédia do exagero é levada muito a sério aqui, várias vezes.

Indo para a parte mais voltada a ação e aventura, esta também não deixa nenhum pouco a desejar. O autor comenta sobre como sua inspiração para começar a escrever esse mangá é o fato de que falamos sobre “matar” de uma forma tão cotidiana quando na realidade é algo que muitos de nós nem sequer vamos presenciar (assim espero). E esse conceito da banalidade do assassinato vai se desenvolvendo com o passar dos volumes de uma maneira incrivel, com todos os personagens aprendendo técnicas novas para o combate contra a super criatura que ameaça a Terra, enquanto aprendem conteúdos colegiais. Mas pra mim, o brilhantismo de Assassination Classroom está em três pontos. E irei explorá-los agora.

A parte pedagógica

Com o passar do tempo, vamos conhecendo um pouco sobre a didática daquela escola. O porquê da sala E ser tão ignorada pelas demais e como isso tudo na verdade faz parte de uma diretriz pedagógica aplicada de forma intencional para o melhor desenvolvimento dos alunos das demais salas. Você, enquanto leitor, fica curioso até para entender se uma escola com aqueles parâmetros seria funcional na vida real, pois a explicação dada é bem coerente na realidade.

E, em contraponto a didática da escola, está a didática de Koro-sensei, que poderia ficar horas falando sobre, mas acredito que um trecho do capítulo 156 resume perfeitamente bem o pensamento dele.

“Sua diretriz pedagógica privilegia ‘a maneira como o peixe nada no rio que habita’ e não ‘em qual rio está nadando’’”.

Koro-sensei é o melhor professor que existe. Utilizando sua velocidade de Mach 20, ele memoriza todos os livros didáticos que consegue e busca criar conteúdos específicos para cada um de seus alunos. Seja para fazê-los decorar fórmulas de física com músicas de aberturas de anime, ou criando clones de si mesmo para ensinar a todos ao mesmo tempo e até mesmo usando a si mesmo como cobaia para mostrar a importância de uma matéria. Aliás, este ponto de se usar de cobaia se mostra presente o tempo todo, visto que Koro-sensei realmente acredita que o que une a classe E são os laços de Alvo e Assassino que eles têm.

Por ser um mangá de comédia com shonen de lutinha, essa parte poderia muito bem ter sido ignorada, mas foi tão bem trabalhada que existem textos acadêmicos relacionando o trabalho de Koro Sensei e do diretor, enquanto professores, a “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire.

E este é um dos mais importantes pontos de Assassination Classroom. O mangá não é apenas sobre uma criatura ultra poderosa, ou sobre crianças se tornando assassinos profissionais. É uma reflexão e uma crítica muito bem estruturada ao sistema de ensino no geral, que constantemente vê seus alunos apenas como potes para se inserir informação, seja para vestibular ou para completar a grade pedagógica que se espera. É mais que isso. É sobre como os alunos se sentem, o que os motiva e sobre o que eles são. E isso leva ao segundo ponto.

O elenco de personagens

Uma classe com 28 alunos, um professor, um diretor, além das figuras do governo e demais alunos. Essa quantidade enorme de personagens acaba criando uma desconfiança sobre o tratamento deles e fica o questionamento sobre quais ficarão de lado e quais terão verdadeira importância. Mas, como uma grata surpresa, o mangá consegue trabalhar bem todos os seus personagens, mantendo um elenco incrível. Claro, o protagonismo ainda está com Nagisa Shiota, Karma Akabane e Kaede Kayano, além do próprio Koro-sensei, porém, todos os alunos têm seus momentos de brilhar, seus dramas pessoais explorados e sua personalidade bem definida. O equilíbrio entre os personagens é tão grande que não são apenas os protagonistas que têm cabelo colorido e diferenciado. 

E falando em dramas pessoais, nenhum deles é algo fora do comum, por mais incomum que a trama pareça. Um nome que você não queria ter; ser um fardo para seus pais; ter que viver a vida que seus pais escolheram para ti; não ser bom no que gosta; não aceitar suas próprias falhas. São todos dilemas humanos, completamente relacionáveis e que deixam todos os personagens incríveis.

O elenco adulto também não fica para trás, mesmo que não seja explorado seu passado tanto assim. Suas personalidades, seus maneirismos, suas formas de ensinar e cada uma de suas mais diversas características são bem estabelecidas desde o início. E isso é justamente o que leva ao terceiro ponto pelo qual este mangá é incrível.

Ironicamente, Assassination Classroom é uma aula de narrativa.

Assim que acabei de ler, fui pesquisar um pouco sobre alguns pontos em específico e fiquei abismado ao ver o quão poucas são as discussões referentes a certos temas do mangá. Geralmente, se é comentado sobre algum evento da trama em específico, mas nada sobre a narrativa em si.

No teatro, existe um conceito conhecido como “Arma de Chekhov”. Em resumo, é uma forma de falar sobre a função dos elementos dentro da cena. Se existe uma arma dentro do palco, ela deve ser disparada em algum momento. Se não for, não há razão para ela estar no palco.

E é justamente neste ponto de função que o mangá brilha. Cenas dos primeiros capítulos são prenúncios para momentos da trama que acontecerão muito mais para frente. A escolha de palavras de um momento acaba sendo resgatada depois para solucionar um problema. Até mesmo um movimento específico que parece ser apenas para fanservice ou para alívio cômico tem função narrativa. Tudo feito de uma forma com que você não se sente traído caso alguma coisa futuramente aconteça, pois desde antes, aquilo já estava preparado.


Assassination Classroom começa como uma obra de comédia que não quer nada demais e com o passar do tempo acaba se tornando uma crítica social ferrenha ao sistema de ensino, além de ser uma história empolgante e ter um elenco incrível e um dos melhores finais que já li (e sabemos o quão difícil é um mangá ter um final bom).

O ponto que mais me incomodou foram suas piadas voltadas ao “ecchi” e aqui coloco entre aspas, pois mesmo elas chegam até a ter função narrativa a maioria das vezes, mas eu, como não sou fã de coisas deste estilo, acabei torcendo o nariz. Pode não ser o caso de muitos, então coloquei mais como um extra do que como um ponto a se observar.

Se puderem, comprem esta coleção. Como não é algo que está no radar do anime, um filme ou algo assim, a probabilidade de um relançamento é quase nula, ainda mais levando em conta que este mangá não recebeu outras versões no Japão como um bunko por exemplo. Mas repito: Se puderem, comprem.

Divirtam-se com a sala de aula, amem Koro-sensei, Nagisa, Karma, Terasaka, Ritsu e todos. Gargalhem com o polvo Mach 20. Entendam os problemas do ensino enquanto vêem todas as tramas se desenrolando. E quando acabarem, releiam. Vejam as pistas plantadas desde o início. E aproveitem cada segundo com este que é de longe o melhor professor que nunca existiu.

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