MB Review: Look Back, de Tatsuki Fujimoto – O quão difícil é superar?

Eu acredito que a maioria que acompanha a mídia dos mangás conhece ou, em algum momento, já se deparou com alguma história Shōnen, narrativas geralmente dedicadas ao público jovem masculino e que, na sua grande maioria, tem por foco a ação. Nesse meio, um dos mais recentes sucessos foi “Chainsaw Man”, uma obra que adere à loucura e ao caos, com um leve toque de crítica ao sistema capitalista (afinal, quem não gostaria de ser um cara motosserra derrotando demônios pelo mundo?). Mas o foco aqui hoje não é sobre essa obra, e sim sobre a capacidade narrativa de seu criador.

Tatsuki Fujimoto, autor da obra citada acima, tem um estilo narrativo independente e bem característico, vide sua outra obra Fire Punch, e que no seu mais recente trabalho, “Look Back”, entregou o ápice da condição humana da superação em escrita, e bem, a gente precisa falar sobre Look Back.

– Narrativa

Look Back foi o mais recente trabalho do autor publicado na “Shōnen Jump+” e que recentemente recebeu sua versão encadernada. A obra é um One-shot (volume único) que acompanha Fujino, uma estudante da quarta série que desenha mangás para o jornal de sua escola. Seus desenhos fazem com que ela se torne a estrela da turma, isto é, até que um dia ela descobre que Kyomoto, uma aluna que se recusa a ir para as aulas e nunca sai de casa, também pretende desenhar um mangá na mesma coluna que ela.

Como é comum nas obras deste autor, a sua base é amena, ou seja, no começo por exemplo, somos encaixados como espectadores sobre o olhar de Fujino, uma garota que sabe que é uma ótima desenhista e sempre vive rodeada de elogios e que, por mais simplórias que suas histórias fossem, têm ciência que é boa nos mangás. Todavia, existe Kyomoto, outra personagem que quase nunca vai para as aulas e que, quando aparece, tem desenhos surpreendentemente bem feitos de backgrounds de cenas, e isso causa inveja na Fujino, afinal, ameaça a sua superioridade.

O grande toque em Look Back no começo é a rivalidade infantil e o gosto do medo. Fujino queria saber quem de fato era Kyomoto, e de alguma forma tentar entender o porquê ela era tão boa. Afinal, enquanto Fujino tinha uma base narrativa extremamente aguçada para uma criança, seus desenhos eram fracos; ao contrário de Kyomoto, que entendia de cenários e os criava de uma forma até assustadora para sua idade, e dessa forma somos apresentados a alguns dos primeiros sentimentos que uma criança tem: a inveja e o medo, sensações essas que podem prejudicar a capacidade cognitiva de lidar com o fracasso e a aceitação de que não somos melhores em tudo que fazemos. E o autor apresenta isso de forma certeira, e claro, criticando também o sistema japonês de educação, que é um empecilho para que o aluno possa lidar com a falta de habilidade.

Devido a sua economia em ascensão e seu tradicionalismo, os japoneses ainda tem um “tabu” em relação ao fracasso. O número de suicídio no país é altíssimo, e seu sistema social ainda carece de opções para que se lidem com a não-ascensão social, sendo que a todo custo isso é acorbetado pela “determinação” pregada no âmbito educacional.

– Por que é tão difícil superar?

A trama se desenrola e, com o passar dela, a rivalidade das personagens (ou pelo menos de Fujino, já que Kyomoto sempre teve uma grande admiração pela colega de classe) é deixada de lado, e ambas começam a trabalhar juntas, se tornando até amigas. É nesse momento que as duas crianças se vêem tocadas pelo sentimento de amizade e de sonhos futuros. Ambas queriam a mesma carreira e tinham quase certeza que tudo iria dar certo. Quase.

Há então uma passagem de tempo e o trunfo dessa parte da narrativa se dá pela cooperação mútua, em que as personagens se esforçam, tendo certeza do que querem e, depois de um tempo, até conseguem que uma de suas história seja serializada na maior editora de quadrinhos do mundo, a Shueisha. Seus sonhos se realizam, mas o que vem em seguida?

O mundo não é um grande conto de fadas. Sonhos mudam, pessoas seguem seus rumos e sempre queremos melhorar. Não há nada de mau nisso.

Com o avanço da narrativa, Kyomoto decide que quer melhorar ainda mais sua arte, e decide parar com a parceria, mas mesmo assim ainda guarda grande carinho de Fujino, apesar desta relutar para aceitar os novos caminhos da parceira…

Novamente temos um salto temporal. Fujino continua serializando sua revista incansavelmente, porém enquanto fazia seus esboços vê no noticiário um atentado na escola de arte em que Kyomoto estudava, e essa notícia lhe tira o chão.

– A dor do luto

Superar não é fácil, ainda mais num sistema tão conservador como o japonês. Demonstrar a dor, sentir e aprender é algo muitas vezes visto como uma espécie de fraqueza, e na trama toda a psique da personagem é demonstrada num mix de sentimentos entre o que ela poderia ter feito, o que fez e o que poderia ter mudado.

Todos os sentimentos da personagem são expostos, e nesse primeiro momento ela entende o quão difícil é superar e seguir em frente. E o quão tentador é olhar para trás e desejar refazer seus passos. 

  • As alegorias em Look Back

Quando o one-shot foi publicado na Jump+, o tradutor Thiago Nojiri, em seu twitter,  fez uma análise muito bem estruturada sobre o título e levantou várias alegorias por detrás da escolha do nome da obra Look Back. Algumas mais subjetivas, outras mais precisas e subliminares, mas todas sensíveis e profundas, o que casa muito bem com o clima da história. 

O título Look Back, na tradução literal, é “olhar para trás”, mas também pode ser interpretado e traduzido como “olhar as costas”, e o mangá é repleto de cenas da Fujino de costas. Outro sentido é o de “seguir os passos de uma pessoa”, coisa que vemos que também é motivador no enredo. Também passa o sentido de “refletir sobre o passado” e o “cuidar de alguém”, o que é presente no enredo e justifica a alegoria. 

Outro ponto levantado por Nojiri, e o que mais me chamou a atenção, é a metalinguagem e a alegoria sobre ser uma história sobre cenários. 

E, finalmente, o que pra mim é o principal – e aqui entra um “japoneirismo” – o sentido de ser um mangá sobre cenários (em japonês, 背景 Haikei, que é “back scenes”). “Look back” pode ser interpretado como: “veja o cenário!”. O fato da Kyoumoto ser especializada em fazer cenários é justamente isso, além de claro, o uso magistral dos cenários no próprio mangá. É muito sensacional a forma como o Fujimoto fez um mangá FODA onde o protagonista é, literalmente e metalinguisticamente, o cenário!

Thiago Nojiri

– Considerações finais

Look Back foi uma das obras mais marcantes que li nesse ano. Por ter sido publicada numa revista Shōnen, esse fato ainda se mostrou mais efetivo (a quebra do estigma demográfico é necessário). Toda a dramatização é tão similar ao sentimento de perda que a obra consegue transparecer muitas vezes o conforto ou a identificação com o leitor para com essas situações que todos nós viveremos ou já presenciamos. A trama é uma aula sobre superação e o quão difícil, porém necessário, é seguir em frente. A perda é real, mas o mundo não vai parar. Afinal, o que nos move e o que nos faz olhar para trás?

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