MB Review: Apanhadores de Sapos

Memórias e ressentimentos em uma bela metáfora sobre a passagem da vida em Apanhadores de Sapos.

Jeff Lemire tem um talento único para falar sobre memória e traumas passados. Assim como em Soldador Subaquático, a vida pregressa atormenta o narrador em mais uma passagem de sua vida.

Um garoto apanhando sapos em um riacho é transportado para o Hotel beira d’água e se vê envelhecido e isolado em meio às memórias que o perseguem. É a memória de sua criança quem deve ajudá-lo a compreender seu passado e elaborar seus traumas inconscientes. A fuga do passado e os arrependimentos perseguem nosso narrador, dificultando a elaboração de suas frustrações.

Nos deparamos com o momento derradeiro destinado a todos e o peso da perda do passado em imagens que se espalham pelo vento sem possibilidade de retorno. Momentos passados são rememorados pelo ressentimento do não vivido. Só cabe enfrentar o que há pela frente.

Assim como as nossas memórias, as formas se desmancham e dão lugar a novos significantes. Os quadros se desfazem como as imagens de um pensamento no segundo que antecede nosso encontro com Morfeus, conduzindo-nos pelos planos da imaginação. Tudo isso acompanhado de um experimentalismo no traço que parece nunca finalizado. O plano de cores também tem papel importante ao nos remeter a distintos planos temporais.

Os elementos oníricos são abundantes, requerendo do leitor um exercício reflexivo do começo ao fim da obra.

Como em suas obras anteriores, Lemire faz das experiências e a reconstrução da memória matéria-prima para sua narrativa.

Apanhadores de Sapos é mais uma obra-prima no desfile de ótimas obras que nascem clássicas da ponta de seu lápis.

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