MB Review: Vampiro Americano

Imagine que honra ter sua primeira série autoral co-escrita pela pessoa que te inspirou a ser um escritor? Pois bem, foi isso o que aconteceu com Scott Snyder.

Vampiro Americano foi a primeira série autoral do escritor estadunidense, Scott Snyder. Mas não se engane, ele não tem nenhuma ligação com o diretor Zack Snyder (Liga da Justiça), a não ser o fato de ambos já terem trabalhado com o universo DC. Scott Snyder decidiu que seria escritor aos nove anos de idade, quando em um acampamento de férias, teve contato com o livro Olhos de Dragão, de Stephen King (IT, O Iluminado, Carrie). 

Snyder tornou-se conhecido inicialmente pelo livro Voodoo Heart (2006), uma coletânea de histórias curtas. Duas dessas histórias foram parar no ano seguinte em uma antologia organizada pelo próprio King, denominada The Best American Short Stories. Em seguida escreveu tanto para a DC quanto para a Marvel em quadrinhos como Batman e Monstro do Pântano.

Em 2010, Snyder surgiu com a ideia de uma série que fizesse oposição à imagem romantizada dos vampiros criados na época por filmes, livros e séries como Crepúsculo, True Blood e The Vampire Diaries. Para isso, resgatou dos confins de sua mente um personagem que começou a desenvolver por volta de 2002, mas que permanecia engavetado até aquele momento. Um vampiro fora da lei chamado Skinner Sweet.

Com boa parte do roteiro escrito e já em contato com a Editora Vertigo, antigo selo da DC Comics voltado para o público adulto, Snyder mandou um e-mail para Stephen King perguntando ao autor, declarado de Scott, se poderia escrever uma frase para que esta fosse colocada na capa da edição quando lançada. King, por sua vez, empolgou-se com a ideia e respondeu perguntando se poderia, ao invés de uma frase, escrever uma história completa para a série.

E assim tiveram início as cinco primeiras edições de Vampiro Americano, escritas por Snyder e King em duas diferentes histórias mostrando a origem e a ascensão de Skinner Sweet, o primeiro de uma nova linhagem de chupadores de sangue.

A edição que tenho em mãos, de capa dura, lançada pela Panini Comics em 2016,  reúne as edições de 1 à 5 da série e são divididas em capítulos. Logo no primeiro capítulo somos apresentados a Pearl Jones, uma jovem aspirante a atriz que, ao lado de sua melhor amiga Hattie, luta pelo seu sonho. O ano é 1925 e ambas atuam como figurantes enquanto dividem um apartamento nas proximidades do estúdio. Pearl desperta o interesse de Hamilton, astro de filmes que a convida para uma festa restrita organizada por um renomado produtor. A garota é alertada por um estranho cowboy a não comparecer ao evento, mas ignora o aviso. Ao chegar no local, Pearl é levada até uma sala para ser apresentada aos figurões do cinema, no entanto, acaba se tornando o banquete de um grupo de vampiros.

No segundo capítulo temos um conto paralelo. A história se passa em 1880 e é narrada por Will Bunting, um famoso escritor disposto a revelar que seu sucesso literário, Sangue Ruim, trata-se na verdade de uma história real. Sangue Ruim narra como Skinner Sweet, o mais perigoso fora da lei do Velho Oeste, é capturado pelo agente federal James Book, e posteriormente, em uma tentativa de resgate, é transformado em vampiro por um milionário banqueiro europeu chamado Percy. Skinner é enterrado e dado como morto, mas consegue se libertar 30 anos depois como o primeiro de uma nova linhagem de vampiros, com menos fraquezas e novas habilidades, um Vampiro Americano.

Este foi meu o primeiro contato com algo de Scott Snyder e confesso que fiquei impressionado. O arco de Pearl Jones, roteirizado por Snyder, tem uma narrativa clara e direta, do tipo que te faz entrar no universo proposto e descobrir suas peculiaridades junto com o personagem. Quando Pearl se torna a segunda vampira da linhagem inaugurada por Sweet, seu criador não deixa muitas instruções sobre como deve lidar com esta nova condição. Como esta nova linhagem ainda é um mistério para os próprios vampiros europeus, que dominam todo o mercado financeiro de Los Angeles e veem esta nova espécie como uma ameaça, descobrimos aos poucos todas as circunstâncias que tornam os vampiros americanos uma classe a ser temida.

Por outro lado, sou um fã de longa data de Stephen King. No entanto, senti que ele teve uma leve dificuldade para se adaptar a este novo formato de escrita. Tive que ler duas vezes o primeiro capítulo da origem de Skinner para compreender melhor. Vale lembrar que, embora algumas obras de King já tenham sido adaptadas para HQs (A Dança da Morte e A Torre Negra), esta foi a primeira vez que escreveu um roteiro direto e exclusivo para quadrinhos. Nas páginas de roteiro disponibilizadas ao final da edição, fica evidente que as escreveu quase como um livro e deixou a mágica acontecer pelas mãos do artista. 

Por sorte, foi amparado pelo brasileiro Rafael Albuquerque, que soube se adaptar ao estilo de ambos os roteiros e, por meio de sua arte, trouxe uma identidade única, algo capaz de unir com perfeição toda a obra. Não é por menos que ambos os roteiristas, no prefácio e no posfácio, rasgam elogios para o trabalho de Albuquerque e o creditam como igual responsável pela realização da obra. Aliás, a partir da 13ª  edição, Rafael é creditado de fato como co-criador da série.

Ainda que não se considere um fã dos vampiros galãs teens de Stephenie Meyer, Scott Snyder parabeniza a autora por ter feito algo novo com vampiros e se prontifica a fazer o mesmo com sua obra, mas com base na natureza maquiavélica destes seres.

Como leitor, parabenizo Snyder pelo feito. Vampiro Americano é o tipo de leitura que fica cravada em sua mente como um filme. Skinner, embora não seja nem de longe um herói, é um personagem cativante que te deixa curioso para descobrir mais sobre ele. Pearl Jones, por sua vez, surpreende ao mostrar sua sede por vingança, e em morte revela-se uma mulher tão batalhadora e destemida quanto era em vida. Com o recente sucesso de adaptações de HQs em plataformas de streaming como Locke & Key (Netflix), The Umbrella Academy (Netflix) e The Boys (Prime Video), vejo American Vampire não apenas como uma ótima leitura, mas como uma potencial candidata a ganhar uma adaptação e ganhando um público mais amplo.

A HQ foi publicada no Brasil pela Panini Comics na Revista Vertigo e posteriormente compilada em 8 edições de capa dura lançadas entre 2012 e 2018. Recentemente, a editora lançou uma edição de luxo, também com capa dura e reunindo 18 capítulos no volume (480 páginas).

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