MB Nacional: O Cão da Encruzilhada – O Rei do Blues e seu breve reinado

Existe uma habilidade conhecida por autores famosos como Bernard Cornwell e Ken Follett, essa habilidade faz com que usem elementos históricos misturados a suas tramas ficcionais de forma que o que não foi contado antes ganhe vida. Quando o mito se mistura à realidade, a imaginação serve de argamassa na construção dessa ponte entre história e ficção. E o que Estevão Ribeiro, Rob Saint, Sandro Zambi e Ítalo Silva fazem nesta belíssima HQ é montar essa ponte tijolo por tijolo. A pavimentação da estrada que mistura mito e realidade é algo importante no trabalho, justamente em Robert Johnson.

Talvez você não tenha ouvido falar deste músico de forma direta, mas deve ter ouvido bandas como Led Zeppelin, Bob Dylan, Eric Clapton, The Rolling Stones, The Blues Brothers, Red Hot Chili Peppers e The White Stripes. Nomes famosos, certo? Todos com fortes influências do blues de Johnson. A obra O cão da encruzilhada torna sua presença real e, de forma indireta, contribui para que possamos sentir a emoção de sua música.

Ninguém sabe exatamente como Robert nos deixou, existem relatos de envenenamento, outros de uma execução com arma de fogo, talvez até o pacto com o Cão, algo levantado por Son House. Afinal, quem poderia cantar Me And The Devil Blues sem ter um pacto com o Mochila de Criança, não é mesmo?

Essa mítica tão difundida é o principal plot do quadrinho. Mas isso não impede de contar os momentos que Robert viveu, as cortadas dificuldades da época e sua visão sobre a música e a quem dedica. Aqui a distância do trabalho braçal dá lugar a “facilidade” que ela pode trazer, afinal o mito da formiga e cigarra é sobre o como a mão de obra manual é maior que a arte, e isso não é à toa.

A arte possui sutilezas que devem ser observadas de forma atenta. Desde o aparecimento do cão até os detalhes do sofrimento de Johnson, tudo vai muito além dos balões de diálogos. Devemos sentir o que está acontecendo, o temor, a música, a vida.

A HQ traz sutilezas de como a apropriação cultural é danosa, afinal, você ouviu sobre The Rolling Stones e não sobre um dos precursores do Blues, tido até hoje por diversos, como o maior compositor de Blues de todos os tempos. Suas ideias são fortes e sua presença amplamente contada, o mito com o Cão já foi explorado pela cultura pop em diversos momentos, como o filme de 1986 Crossroads, e até mesmo na série Supernatural com o episódio Crossroad Blues. Se o audiovisual explora a mítica, a HQ aprofunda sua história de vida.

Um show à parte é a qualidade física da HQ, lançada como se fosse um LP. Você a tira com a sensação de mexer em um disco velho. É muito interessante ver o Lado A e Lado B ao retirar a obra da capa.

Para os que curtem estampar belas coleções, este quadrinho é uma forte pedida. Mas se você aprecia uma boa arte e uma dose de história, ela passa para o status de obrigatória.

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