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MB Especial: Mundo Pet e Capa Preta

A primeira vez que vi o trabalho de Lourenço Mutarelli foi bem recentemente. Foi  no livro A Metamorfose, de Franz Kafka, que a editora Antofágica lançou em 2019, estreando seu catálogo. O livro inicia com uma ilustração detalhada, que dura diversas páginas, retratando a famosa primeira frase do livro:

“Quando Grego Samsa, certa manhã, despertou de sonhos intranquilos encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso”.

As ilustrações daquele livro me chamaram a atenção e, em conversa com uma amiga, esta comentou que já tinha lido Kafka em outras edições, mas que a da Antofágica estava visceral. Tinha algo de diferente ali, na forma com a qual Mutarelli ilustrava um ser humano se transformando em um inseto.

Então, alguns anos depois, me foi dada a oportunidade de ler algumas obras escritas e desenhadas por ele, nas duas coletâneas lançadas no Brasil pela editora Comix Zone: Mundo Pet e Capa Preta.

Thiago Ferreira, editor da Comix Zone, em seu vídeo falando sobre Contos Ordinários de uma Sociedade Resignada, comenta que encontrou “O Mutarelli turco” naquelas páginas. Coincidentemente, quando eu acabei de ler as histórias, a mensagem que mandei para uma amiga foi “Isso aqui é muito Karabulut [autor do quadrinho mencionado]”.

Seja na forma de trabalhar as histórias, nas críticas, na narrativa ou até mesmo na arte, ambos os autores trabalham praticamente os mesmos quesitos. Suas semelhanças são tantas que muitas das histórias presentes nestes dois álbuns passam a sensação de “não entendi nada do que aconteceu”, seja pela quantidade extrema de detalhes, pelas críticas desconfortáveis ou pelo alto teor de absurdismo, no melhor dos sentidos, que Mutarelli entrega.

E por isso, já deixo avisado de cara: Não é uma leitura fácil. Seja pela arte com muitos detalhes – que tornam as figuras grotescas -, seja pelas mensagens, por cenas específicas, pelo linguajar, ou até mesmo alguns temas abordados, visto que são obras feitas há bastante tempo.

Além de não ser uma leitura fácil, se você quiser aproveitar a história de verdade, será preciso reler, talvez até mais de uma vez. Inclusive, uma recomendação que faço a qualquer pessoa que queira ler obras dele é debatê-las com amigos que também leram. Isso pode fazer com que você enxergue camadas sobre a história que não via antes. Sei que isso é aconselhável para praticamente qualquer história, mas nesse caso tem um apelo mais forte.

Mas, do que fala a história então?

Capa Preta é uma coletânea com 4 histórias curtas enquanto Mundo Pet compila um pouco mais, 12. Todas elas com praticamente o mesmo tema: O sofrimento que é viver e as poucas coisas que aliviam isso.

No Budismo, existe um conceito conhecido como “As Quatro Nobres Verdades”. E a primeira delas pode ser interpretada, com um viés mais pessimista, como “Viver é sofrer”. A dor é inerentemente ligada a vida”. Enquanto na filosofia budista tal verdade se aplica ao fato de que não se é possível obter satisfação e felicidade absoluta, a frase citada pode ser utilizada para demonstrar muito do que Mutarelli escreve em suas obras.

Em cada uma das histórias nos é apresentada uma situação que mostra, com uma mensagem perceptível ou não, como o simples ato de viver pode machucar e como o mundo não é belo, estando longe disso. Com uma visão realista, pendendo ao pessimismo, Lourenço trabalha desde questões absurdas a cotidianas com essa temática.

Seja com a ideia de transferência de memórias através de antropofagismo em Eu acordava chorando; a ideia de que alguém possa estar mudando suas coisas aos poucos e substituindo-as por outras exatamente iguais em Estampa Forjada; ou em abrigar um completo desconhecido em sua casa por meses em Morfologia. Cada ideia absurda vinda do autor acaba trazendo comentários sobre a sociedade, representações filosóficas ou que nos fazem refletir sobre algum ponto da vida. A escatologia e a presença de iconografias religiosas também são uma marca carimbada do autor, podendo ser vistas como uma crítica a como estes conceitos se tornaram vazios e depravados de seu significado original.

Aliás, se não deixei claro até o momento, deixo agora: Os livros são cheios de gatilhos. De estupro a suicidio. Temas fortes que podem deixar desconfortáveis até mesmo aqueles que não se chocam com tais cenas.

Devo admitir que as histórias de Mundo Pet foram mais fáceis do que as de Capa Preta. Enquanto o primeiro álbum traz histórias que me fizeram refletir por dias, a maioria das narrativas presentes no outro me trouxeram uma impressão de “O que será que ele quis dizer com isso?”, com exceção de Transubstanciação, a história que inicia o quadrinho, em que as mais diversas mensagens podem ser lidas, muitas delas nocivas para pessoas que não estiverem em seus melhores estados mentais. Enquanto isso, as demais três histórias presentes só me foi possível entender um pouco mais sobre através dos conselhos dados ali em cima: discussões com outras pessoas sobre as histórias mostrando seus pontos de vista.

Um fato sobre Lourenço que pode contribuir com a leitura e o entendimento é saber que ele, devido a um trote onde o sequestraram como parte de uma brincadeira de mau gosto, desenvolveu crises de pânico fortíssimas e por um longo tempo ficou atormentado por isso. Tormento este que é possível ver tanto na visão de mundo quanto nas mensagens das suas obras. Sendo honesto, pesquisar um pouco sobre a vida de Lourenço pode ajudar a dar uma interpretação mais intensa às suas histórias.

Apesar de já ter comentado sobre a arte, preciso tirar um tempo nesta análise para falar exclusivamente de toda a produção envolvendo Mundo Pet. Descrito como uma reunião das histórias mais experimentais de Lourenço, seu processo criativo aqui evidencia isso ainda mais. As formas de colorir de cada um dos contos são diferentes, passando por pinturas feitas sob fotos, colagens de fotos de soldadinhos de brinquedos e até digitalização de imagens de linguiça escaneadas. Cada uma das histórias não é uma novidade apenas por seu roteiro, mas também pela forma com a qual Mutarelli decidiu contá-las.

Sobre as edições nacionais, a Comix Zone fez um trabalho excelente. Ambas têm capa dura com verniz localizado, lombada redonda, com o mesmo tamanho para felicidade de lombadeiros. Apesar da falta de um marca-página, os quadrinhos vêm com um fitilho. O preço de capa de Mundo Pet é R$99,90, com 120 páginas, enquanto Capa Preta custa R$120,00 com suas 304 páginas. Para os fãs do autor, são pratos cheios que compensam comprar em eventuais descontos.

A verdade é que muito do que essas obras têm a oferecer nem sequer foi mencionado aqui, mas cada conto mereceria um texto próprio e, para não ser injusto com nenhum deles, e também para não dar spoilers das histórias, fiz este compilado.

Mundo Pet e Capa Preta são duas obras de resgate histórico dos quadrinhos brasileiros! Histórias pesadas e tristes prontas pra te dar aqueles socos bem dados e lembrar a nós de que viver é muito complicado. Não é uma leitura fácil e desperta gatilhos, mas caso queira se aventurar, vale demais a pena, ainda mais se puder discutir as ideias por trás dessas obras. 

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